terça-feira, 29 de janeiro de 2013

do Equilíbrio - Melhor; da diferença entre teimosia e lucidez.


-Bom dia senhor professor.
-Bom dia, senhor Pedro. E olhe que o dia hoje está bonito.
-Está bom para um passeio.
-Para quem pode...
-O senhor pode. Tem é que arranjar uma bengala em vez do guarda-chuva; um dia destes espalha-se...
-Bengala não. Bengala é sinal de velhice!

O professor Pedro Duarte é residente no hotel há mais de dois anos. Começou por passar temporadas, mas depois acabou por ficar.
Esteve acamado desde o dia onze de Novembro até há meia duzia de dias atrás como resultado de uma queda que lhe provocou uma mialgia de esforço na perna esquerda.
Já no Inverno de 2011 tinha sido operado à prostata e fez a recuperação toda no hotel. Sem ajudas.
É um homem rijo, seco, que não deve pesar mais que cinquenta quilos, apesar de ser relativamente alto.
O professor Pedro Duarte acha que bengala é sinal de velhice.
O professor Pedro Duarte vai fazer no próximo dia vinte e oito de Agosto, oitenta e cinco anos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Uma cóboiada das antigas, mas desta vez a sério.


Sabia-se que Tarantino acabaria, mais cedo ou mais tarde, por bater no tecto.
Django Unchained (libertado, na versão portuguesa) é realmente um hino ao cinema.
Um hino ao cinema enquanto arte, enquanto entretenimento, enquanto agregação de memórias.
É um filme brutal, carregado de simbolismo, carregado de cinema, carregado daquilo que faz o cinema e que faz aquilo que são as pessoas que gostam de cinema.
Nem por um momento nos conseguimos esquecer que estamos perante um Tarantino, mas basta darmos um pontapé numa pedra para encontrarmos, sem esforço um dos Sergios que transformaram em arte as cóboiadas feitas em Italia ou nas planícies de Almeria.
Mas desta vez Quentin Tarantino foi mais longe ao ponto de ser preciso trabalhar um bocado para se conseguir encontrar em toda a história do cinema um retrato tão fiel da época pré guerra de secessão. Um retrato cru e rigoroso do ambiente que se vivia nos campos de algodão do sul dos Estados Unidos.
Juro que no final esperava uma saída em direcção ao pôr do sol ao som do mais ausente dos presentes, Ennio Morricone, mas até aí fui surpreendido.
A gargalhada final dá-se ao som da música de Trinitá, o cow-boy insolente.
É um aperto no coração.
E nem sequer falei na história ou nos desempenhos fabulosos de Christoph Waltz e Samuel L Jackson, isto para começar, porque se entramos por aqui só paramos nos Oscars.
Grande filme.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Como morrer sem stress, guia prático ilustrado.


Surreal.
Aterrei na SIC Radical num programa onde se estavam a abater (??????) cordeiros
num estúdio de televisão ao vivo.
A apresentadora, a falar baixinho e pausadamente para a plateia, explica que os técnicos que vão fazer o abate são experientes e competentes e que vão fazer o serviço de modo a que os borregos morram o mais humanamente (sic) possível. Claro que não explica o que quer dizer "morrer humanamente", mas também não sei se quero saber.
O processo inicia-se com o técnico a explicar que o primeiro borrego vai levar um choque de alta voltagem que o vai deixar atordoado para não sofrer. Infelizmente esquecem-se de informar o bicho e este leva o choque e, ao invés de ficar atordoado, foge pela sala fora com o técnico experiente a correr atrás dele enquanto um outro técnico explica que provavelmente a máquina dos choques não funcionou.
Apanhado o infeliz, e já sob a supervisão do veterinário que se assegura que o bicho,  um bebé que levou um choque e foi agarrado por dois técnicos dez vezes maiores que ele, não está em stress, vão buscar uma pistola e espetam-lhe um balázio na moleirinha que o deverá matar.
Mais uma vez se esquecem de fazer um briefing com o animal porque, apesar do técnico garantir à apresentadora que desta vez está morto, esperneia que nem um condenado enquanto o penduram de cabeça para baixo e lhe abrem as goelas com uma faca para que se esvaia em paz e sem stress.
Quando desliguei a televisão, enojado, o desgraçado já tinha despejado umas boas golfadas de sangue e, apesar de atordoado e morto, ainda esperneava.
Mas este tipo de programas interessa exactamente a quem?   

Há quem diga, e bem, que somos resto dos que ficaram.



Consta que fomos, mas que já não somos.
Consta que o que somos não é nada do que fomos.
Se foram audazes os que em tempos foram,
Com eles iam a semente e o arrojo.
E porque nós ficámos, acabámos orfãos.
Recolhidos à sorte do conforto;
Do nada.

E se hoje é dolorosa a ida,
Será talvez resiliente a espera.

O conforto do aguardo,
É novamente o nada.

Se quem parte sofre, sofre quem fica.
Se para partir é necessário peito...

Se para ficar a arte de esperar por ontem.

Não se sabe audaz quem vai,
Se mais tenaz quem fica.
No aguardo...



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Da necessidade de colocar sempre as coisas em perspectiva ou como dizia o Peter Gabriel "if looks could kill, they probably will"


Compro meias duas vezes por ano.
Sempre no Verão, sempre no Inverno e praticamente sempre no comércio tradicional.
Hoje é Inverno e fui às meias.
Fui à Baixa, fui enganado na Briosa porque me venderam um folhado de Chaves que veio a pé de lá e começou a caminhada, quase de certeza, antes do Natal- não merecia, sou cliente habitual e dos que compram pastéis às caixas - e mesmo tendo sido enganado e tendo reclamado ainda comprei uma caixinha de Nevadas que essas sim, essas mesmo que venham a pé é de Penacova que, convenhamos, além de mais perto é sempre a descer.
Entre a Briosa e as meias encontrei músicos e dei asas ao meu lado filantrópico: ao mecenato do nível que me posso permitir. Distribuí moedas...quis o destino que só tivesse das grandes.
Chegado às meias. Lindas. De lã para manter os pés quentinhos (deitar em lençois lavados e calçar meias de lá novas são dois prazeres igualmente bons e igualmente reminiscentes, quase viagens à infância, ao colo). Comprei quatro pares com vinte e cinco por cento de desconto. Vou andar com um pé gratuito…
Paguei em dinheiro (mais ou menos) vivo e faltou-me uma moeda para facilitar o troco.
"Desculpe, mas dei as moedas todas aos músicos. Também trabalham e têm direito...".
"Isso é verdade e respeito-os, mas podiam ter um repertório mais variado. O senhor já viu a estafa que é estar aqui uma tarde inteira a ouvir sempre as mesmas três músicas? Uma pessoa cansa-se. Ainda se houvesse clientes…”.
Foi aí que se me fez luz e me preencheu a memória a senhora da loja em frente ao Millennium a quem quase agredira com os olhos momentos antes.
A senhora que, de caneta em riste, saiu porta fora, vermelha, e pediu ao rapaz do saxofone que se calasse um bocadinho ou que mudasse de sítio. Chovia e eu estava abrigado ali ao lado, deliciado com um solo de free jazz extraído com o que me pareceu competência, de um saxofone preto e cromado e que, poderia jurar, tinha mais botões que o costume. E como o rapaz do saxofone fazia render os dois euros que lhe tinha posto na caixa, senti-me roubado por quem o mandava calar.
Baixei os olhos que antes tinham literalmente esfaqueado a senhora que só queria fazer o inventário com a cabeça sossegadinha e segui prás meias a pensar no quanto a nossa sociedade estava a ficar irritadiça.
Afinal não.
A moça das meias é menina para ter razão.

domingo, 6 de janeiro de 2013

De como um arrazoado de inutilidades pode ter, afinal, algum sentido


Não me custa nada ser pobre, exceptuando talvez a chatice que é a sensação de não ter dinheiro.
Tirando o acima exposto, ser pobre não é pior hoje do que sempre foi.
Mau mesmo é pensar à pobre, coisa que nem os pobres fazem.
Mau mesmo é pensar que o amanhã não tem como ser melhor que o hoje.
E eu hoje, tenho que concordar comigo, tendo a pensar à pobre.
Continuo a fazer o que sempre fiz. Vivo abaixo das minhas reais possibilidades e sinto-me, como aliás sempre me senti, perfeitamente confortável com isso.
O que me causa urticária é o incómodo de saber que alguém, algures, se convenceu que é importante eu ser pobre para que a área geográfica alargada onde me inseriram consiga garantir a um grupo de privilegiados que continuem a ser privilegiados - Sou pobre mas por razões financeiras e não doutrinárias, principalmente se forem razões doutrinárias ditadas por outrém.
Dificilmente conseguiria ser comunista, daqueles à antiga, enclausurado do lado de lá da cortina de ferro. Só a uma entidade permito que me mande poupar: à minha carteira.
Não tenho raiva, apenas inveja, de quem tem mais que eu. A inveja é para muitos um catalizador - uma mola impulsionadora. Para mim é uma merda: gostava de ter o que fulano tem, mas não me apetece ter o trabalho necessário à sua obtenção. Daí que aprecie, de coração aberto, quem tem sonhos e tudo faz para os concretizar. Quem luta com ardor e com a razão do seu lado, merece o meu mais profundo respeito e a minha mais prolongada admiração. É essa a minha inveja.
É que há pobres que me causam esta minha peculiar inveja...
Ser pobre sim, mas por força das circunstâncias. Jamais por força da doutrina.
A doutrina que nos põe a pensar à pobre, coisa que nem os pobres fazem.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

My name is Can, Ameri Can.



Os primeiros comentários fizeram-me ficar de pé atrás, não o posso negar.
"Provavelmente o melhor Bond de sempre"
"Skyfall é o melhor filme da saga 007"
Desde que gastei dinheiro num bilhete de cinema para ver o "Festim Nu" do David Cronemberg (Naked Lunch no original) e só vi gente vestida que me habituei a desconfiar dos críticos de cinema, sejam eles assumidos ou curiosos.
E mais uma vez confirmei a minha teoria.
Skyfall é um excelente, repito, excelente, filme de acção.
Americano.
Skyfall é um excelente filme de acção americano.
Tem um "artista" com ar reguila que se farta de correr embora diga entre dentes "já não tenho idade para estas coisas" e transpire que nem uma chaleira a fazer lembrar a nova moda americana de pôr velhos à porrada nos filmes. Tem uma cena de sexo fugidia com o que parece ser uma prostituta num bairro pobre e outra cena de sexo, ainda mais fugidia com uma prostituta macaense assumida. Tem porrada à americana que envolve correntes de ferro e onde o "artista" leva mais vezes do que dá. Tem facas (???????). Tem uma reviravolta algures durante a história. Tem um enredo e tem um final de típico filme de acção americano: um mano a mano onde o resto do mundo ficou para trás e apenas os dois "artistas", o bom e o mau, se degladiam. Nas palavras dos próprios, "The last two rats". Claro que aí aperceberam-se que a coisa estava a ficar muito "cliché" e obviaram o mano a mano: quando ficaram só os dois em condições de funcionalidade, um mata o outro pelas costas sem mais delongas.
Tivessem posto o nome de Freddy ao "artista" e tivessem dado maior enfase ao facto de Kincaid ter chamado Emma a "M" e ninguém se aperceberia que se tratava de um "double 0 seven movie."
Ah! E o David Brown 5 que mais valia terem deixado na garagem, se era para o espatifarem - mais uma americanice.
Javier Bardem deu a credibilidade necessária a um vilão que se preze, além de um tique de modernidade ou "political correctness" (vejam o filme para compreenderem este ultimo comentário). Pese embora o facto de no livro que deu origem ao filme de 1974, "O homem da pistola dourada", Ian Fleming já ter aflorado esse tema ao descrever Scaramanga. O tema? Vejam o filme (o Skyfall) e aquela que poderia ter sido a terceira cena de sexo.  
Finalmente revelo o porquê de tanta gente dizer que este é que é o melhor filme da saga: este filme enche as medidas a quem tem saudades de quando se andava no carro sem cinto de segurança, de quando os brinquedos eram pintados com tintas toxicas e soltavam peças capazes de sufocar um elefante em segundos, numa palavra, pessoas que sabem a relação que existe entre uma esferográfica e uma cassete.
E porquê?
Porque este filme começa com um hardrive e acaba com uma facada nas costas no meio do nada, sem água potável nem luz. Porque este filme prova que, apesar da tecnologia, "é sempre preciso alguém para apertar o gatilho" nas palavras do "artista" ou atirar a faca, acrescento eu...

Quanto ao que eu penso do James Bond, está aqui o que eu penso.
    

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Treze


Acabei de despir o casaco mais pesado que alguma vez carreguei.
Carreguei-o durante um ano e senti cada dia que com ele andei vestido.
Dois mil e doze foi o meu ano do estupor.
As vértebras da minha alma ficaram irremediavelmente pisadas sob a pressão do peso das pedras que o rancor me foi diariamente colocando nos bolsos.
Transporto comigo marcas que tempo nenhum conseguirá apagar. Foi dois mil e doze que me ensinou a conter a raiva. Uma coisa fria e dolorosa que se instala nos terminais da dor e só passa quando se dá um chuto no balde.
Em dois mil e doze ruiu o único plano que tive na vida. Não foi a vida porque essa não se planeia. Deixa-se empurrar ao sabor dos sonhos e das oportunidades – nunca à força de planos, passo primeiro para o dissabor.
Da minha vida não me queixo. O essencial, tenho-o em dose suficiente e se não me considero feliz é apenas porque não entrego à minha felicidade o protagonismo que ela me quer diariamente exigir. Prefiro apostar na felicidade terceira.
O ano de dois mil e doze foi o ano do estupor para o meu plano de quase vinte anos. Um plano de realização profissional que construí e guardei em caixinhas de suportada resiliência à espera de um dia lhe poder dar a luz do sol.
Ruiu em dois mil e doze.
Hoje não tenho plano. Permiti-me utilizar todo o ano que findou para digerir o estupor – a admiração. Aquela reacção aparvalhada de levar um murro sem contar e olhar em volta à procura do autor.
Hoje, um de Janeiro de dois mil e treze, não tenho plano: tenho a vida. A tal que se deve empurrar ao sabor dos sonhos e das oportunidades.
Nada será como dantes, excepto o quotidiano.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

da Paz e da pequenês



A minha tia Helena trabalhou até ser atraiçoada pela mente pois o corpo, que há muito não podia, sempre resistiu.
A minha tia Helena foi abandonada pelo marido numa época em que tal coisa era a mais suprema das humilhações e mesmo assim criou quatro filhos.
A minha tia Helena tratou da mãe até ao fim sem um queixume. E a minha avô morreu bem velhinha e em paz.
A minha tia Helena tinha com o meu pai uma relação respeitosamente afectuosa: o cunhado que lhe levou as duas filhas ao altar.
A minha tia Helena cozia broa e telefonava ao meu pai que lhe levava sardinhas ou enchidos para a rechear. E naquelas noites de Inverno eu ia vê-la junto ao forno a tirar a broa que se abria logo ali e deitava um fumo espesso e untuoso e cheirava a milho.
A minha tia Helena morreu ontem e foi hoje a enterrar sem missa porque o padre da Mealhada a considerou, apesar de católica, não praticante.
Coíbo-me de dizer do padre da Mealhada mais que isto: não tem cara de ser boa pessoa. Acho isso desde que o vi pela primeira vez.
A minha tia Helena não tinha como ser praticante: estava encarcerada pelo seu próprio discernimento e ultimamente confinada a uma cama.
A minha tia Helena não morreu em paz e um homem a quem foi confiado um papel de  apaziguamento e de conforto espiritual, negou-se a cumprir sua função, não por ser incompetente, mas por ser mau.
Conheço poucas pessoas que merecessem tanto subir em paz como merecia a minha tia Helena.

domingo, 23 de setembro de 2012

"Estou a morrer, Pedro."
"Estamos todos" era o melhor que eu conseguia produzir como resposta.
O pior é que era verdade. E o seu eu médico, a laborar em causa própria, não lhe permitia não ser lúcido.
Foi hoje.
Bateu o som do sino e a Elsa, que acerta sempre, cumpriu.
Morreu o dr. Rocha.
Subiu com o Verão e deixou-nos a chuva para mascarar as lágrimas.
Em troca, entrou-nos um Outono pela alma dentro.
É sempre antes do tempo, mas em alguns parece ser mais antes.
Descanse em paz, meu caro amigo.
Pode ser que sejamos um dia surpreendidos pelas nossas descrenças e ainda nos reste tempo para mais um dedo de conversa ao correr da eternidade.
Quem sabe...

domingo, 8 de julho de 2012

da Caridadezinha


O Lions Clube da Mealhada (Lions mesmo, não é o núcleo Sportinguista) faz um trabalho inestimável no apoio aos mais carenciados.
Um dos seus mais efectivos programas prende-se com o apoio na compra de material escolar destinado a crianças de famílias sem posses ou a passar momentos complicados, situação cada vez mais comum, mesmo no nosso concelho que felizmente nem é dos mais assolados pelo flagelo do desemprego.
O programa está aberto a quem queira participar, Lions e não Lions, e resume-se a um apoio pecuniário de cerca de cento e cinquenta euros (não tenho a certeza do valor correcto), quantia que permite apadrinhar um estudante. O dinheiro é utilizado directamente na compra de livros e outro material e o seu valor será à partida suficiente para garantir todo um ano lectivo.
Infelizmente, e porque não há almoços de borla, o organismo vê-se obrigado a organizar um lanchezinho onde patrocinadores e patrocinados acabam por se conhecer de modo a não ser perdido de vista o facto de que alguém está a dar alguma coisa a alguém.
Os patrocinados não se sentem humilhados porque quem precisa não pode dar-se a esses luxos e os patrocinadores acabam por exibir a sua bondade, sentindo-se com isso mais próximos de garantir a entrada no restrito reino dos céus.
Consta até que levam os rebentos com o intuito de lhes enrijecer a personalidade, benefício que advém do facto de conviverem com os pobrezinhos. No final, em casa, sulfatam-nos com remédio contra as pulgas e ficam como novos. Sempre fica mais barato que ir ao Badoca Park.
Para tornar a coisa ainda mais surreal, contaram-me um dia destes que há quem se tenha inscrito no programa do lado dos "caridosos" e que, com o processo já em adiantado movimento, se tenha "esquecido" de dar os trinta contos.
Recusaram-se a contar-me quem foi, mas se o objectivo era a conquista do tal lugar no céu, isso é de somenos importância: convém é terem em conta os relapsos que aparentemente lá em cima a base de dados é muito completa e que por lá tudo se sabe.

domingo, 1 de julho de 2012

do eTerno reTorno


O instagram começou por ser um app de iPhone que acrescentava efeitos às fotos.
O sucesso levou os detentores da marca a abrirem à comunidade Android e a expandirem finalmente o zingarelho para o mundo todo.
É um app realmente interessante e propõe um nunca acabar de efeitos, alguns
realmente espectaculares.
O curioso no meio disto tudo é que apesar de toda a parafernália digital, a malta acaba por vir cair aos pés do antigamente: fotos em papel.
Nasceu a camara instagram que faz tudo o que faz um smartphone: edita, envia, coloca online, mas que, à semelhança das antigas Polaroid, imprime directamente.
O sistema é ligeiramente diferente porque nas Polaroid era a própria foto que se revelava e nas instagram existe uma impressora incorporada que gasta consumíveis. Isso permite criar fotos em papel normal.
Podemos dar trezentos passos em frente, mas de vez em quando sabe bem dar dois ou três atrás.
Fixa as referências e estrutura o caminho.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

da Memória



Nasci numa rua de velhos.
O primeiro contacto foi adocicado: a dona Georgina que fez oitenta anos no dia em que nasci e que enquanto viveu, doze ou treze anos, sempre se lembrou de mim. Recordo um Rolls Royce Silver Ghost, mas houve mais. Era pequenina e tinha o cabelo branco, a dona Georgina.
E o "Ti" Quintas, que se sentava à porta com os braços cruzados sobre as costas da cadeira e que fumava tabaco de enrolar. Era um homem austero, o "Ti" Quintas, que ameaçava cortar com uma navalha as bolas que lhe fossem cair à horta. Nunca cortou nenhuma... O meu pai sempre me disse que ele era um bom homem, mas pelo sim pelo não nunca me aproximei muito.
Numa ponta da rua vivia o professor Armindo que era alto e como tinha os pés pequeninos caminhava de uma forma engraçada. Consta que era mau quando leccionava, mas a mim nunca me assustou: sempre o estimei. Na ponta oposta vivia o senhor Machado. O senhor Machado era o gerente do banco. Uma figura inacessível, amigo do meu pai, mas de quem se guardava uma prudente e saudável distância, nunca soube bem porquê. O sr Machado era casado com a dona Elisiária, o correspondente em português à madame Hyacinth Bucket (pronuncia-se bouquet) da serie "Keeping the Appearences" que a BBC criou anos mais tarde.
Em frente vivia o senhor Pompeu que era latoeiro. E bombeiro. Lado a lado com o senhor Manuel Luis, sapateiro e orgulhoso progenitor do Rui, guarda-redes, uma velha glória do Futebol Clube do Porto. Foi o meu sapateiro até ao dia em que me aconselhou a mudar por já não ter a destreza de outrora. Trabalhava com o radio ligado e tinha cartazes do F.C.P. nas paredes. E quando as mãos lhe começaram a tremer, pedia-me que o ajudasse a abrir buracos com o berbequim nos saltos dos sapatos das senhoras para encaixar as capas.
E lembro-me vagamente do sr Oliveira que tinha um Opel dos anos quarenta onde se passeava ao Domingo com a dona Ermelinda. E do portão da casa deles que tinha um arame que fazia tocar um sino.
E da senhora Alzira Coleta, e da dona Angela, e do senhor David, e da Ti Sara, e do senhor José Adelino, e da dona Isabel que também fazia anos no mesmo dia que eu (e que também nunca se esquecia) e da Cilinha que era professora e casou (muito) tardiamente com o senhor doutor que tinha um Volvo amarelo e era surdo.
A minha rua sempre teve velhos e quase sempre velhos sentados à porta. O último foi o senhor Francisco que esteve muitos anos no Brasil e que me cumprimentava sempre com um "Oi, tudo jóia?".
O senhor Francisco subiu ontem à noite e foi juntar-se à constelação da rua dos viscondes. Era tio do Zé Mota, grande amigo de infância que, tal como eu, teima em não arredar pé daqui.
Resta-nos a possibilidade de envelhecer: com ou sem cadeira à porta.

sábado, 31 de dezembro de 2011

do encerramento


A D. Julia reformou-se hoje.
Fomos colegas de trabalho durante quase dezoito anos e embora não fosse uma funcionária excepcional, cedo percebeu que eu compreendi que às vezes existem coisas na nossa vida que nos condicionam as atitudes e a entrega.
Tivemos momentos bons e momentos menos bons, mas confirmei hoje que os bons prevaleceram.
Como já não nos iríamos encontrar, deixou-me esta nota e uma lembrança feita por ela.
Dificilmente alguém me concederia um final de ano melhor.
Feliz dois mil e doze.

sábado, 24 de dezembro de 2011

do Portão

As quintas-feiras chegavam a ser dramáticas.
Nesses tempos em que o convívio era moeda corrente na relação entre as pessoas, as quintas-feiras destoavam.
À quinta, o Portão estava fechado.
Claro que depois vinha a sexta - o início da girandola que se estendia até ao final da tarde de domingo, tantas vezes selado com um chá e uma torradinha para mitigar a ressaca.
A Mealhada era o centro do mundo nas noites de fim de semana e o Portão era o centro da Mealhada. Tudo se passava ali e todos por ali passavam.
A noite nascia ao fundo das escadas, no ambiente de madeiras escuras que nasceu como café/restaurante mas rapidamente passou a café/café onde se serviam refeições. E pastelaria própria.
No inverno desfiava-se o tempo a contraluz ao calor da lareira, mas mal abria o céu, saltávamos cá para fora. Era nos degraus da porta principal que se encostava o Ricardo a distribuir bocas por quem passava. Era junto à porta que o Paulo César encostava o Starlet da mãe para se gabarolar de um turbo que todos sabíamos não existir debaixo do capot. Até que um dia chegou o turbo, sob o capot de um Delta HF. E desse nunca ninguém duvidou.
Duas figuras que já subiram: os dois de forma trágica e muito prematuramente.
O Portão ensinou-me a beber cerveja... nunca lhe conseguirei agradecer o suficiente.
E na tarde do dia de Natal houve alturas em que, com óbvio e jamais escondido sacrifício, o senhor Hilário nos punha bolo rei na mesa para ensopar. E nós estranhávamos. Mas vencíamos o preconceito e comíamos sem medo.
Construiram-se vidas e amizades e compromissos naquelas cadeiras baixas e muito se discutiu e falou e cresceu. 
E as tostas mistas que o Max trazia. Parecia que voava, o Max...
E quando à quarta à noite o Ricardo arrematava por um preço simbólico os pasteis da vitrina para serem comidos na quinta, numa cave muito bem frequentada da Lagoa de Maria. Às vezes eram congelados... comi alguns, lembro-me perfeitamente, ainda gelados num ritual de desassombrada rebeldia.
O Portão era nosso. Foi a nossa casa durante muitos anos e é sem ponta de vergonha que reconheço que foi um tempo bom que se foi. Um tempo agri-doce como todas as experiências de vida.
Nada voltará a ser como foi e isso não é necessáriamente mau.
Mas que foi um tempo bom, ai isso foi.
Quando hoje olho para aqueles degraus, lembro-me das horas que ali passei e quase que arrisco. Mas esses degraus são hoje a entrada do BES e não me parece apropriado.
Se calhar é preconceito.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

das coisas que se não sabem nem conhecem mas que nos enchem



Ousemos ousar e pensemos que o Natal é Natal.
E na ponta da árvore dependuremos sonhos.
Na estrela um rumo e no brilho de cada bola o reflexo dos ausentes.
Dos Natais passados, tentemos fazer presentes.
E por cada cor um desejo e por cada fita uma jura e por cada som um brilho.
Uma centelha de esperança em cada crepitar, em cada vela, em cada luz, em cada olhar.
E um esforçozinho para sermos bons - aproveitemos o ensejo.
Buscando de paz em paz o conforto dos dias quentes, lembremos o colo, o abraço apertadinho, o dolente dançar das labaredas contidas à lareira, espalhando vida em seu redor.
E por que não chorar?
E lembrar quem já não é...
E pedir ao Pai Natal,
Porque a vida custa todos,
Pra limpar a chaminé!

domingo, 11 de dezembro de 2011

das comidinhas de Inverno

(Anda cá minha linda que eu não te faço mal...)

Então é assim... (só esta introdução já me valeu um leque muito mais alargado de leitores).
Toma-se uma garrafa de Campari e coloca-se perto da vista.
Desfiam-se umas cascas de tangerina para dentro de um copo avantajado onde irão fazer companhia ao gelo e à primeira dose do mais fantástico dos aperitivos amargos.
Junta-se uma garrafinha, a primeira, de água tónica Schweppes, a única digna desse nome.
Feita a "mise-en-place", passemos ao que interessa. Antes, já me esquecia, liga-se a vitrola - no caso até pode ser o disco de Natal do Michael Bublé.
Torce-se o pescoço (o Campari já ingerido dá coragem) à galinha mais gorda que se andar a pavonear pelo galinheiro.
Fazem-se as coisas que se fazem às galinhas e que começam com "torce-se o pescoço" e acabam com "corta-se ao pedaços".
Na panela, de generosas dimensões, puxam-se em azeite, em uníssono, troços ataballhoados de cebola, pimento vermelho, tomate, alho, cenoura, uma malagueta (ou duas) e bacon.
Apenas ligeiramente.
Quando há, pode juntar-se um talo de aipo que dá aquele gostinho a Knorr que nos lembra da nossa condição de classe média baixa.
Depositam-se os pedacos da galinha devidamente aspergidos com sal, pimenta, cominhos e umas colheradas de paprika. Deixa-se crepitar a coisa, mexendo para uma mais completa sinfonia.
Quando a galinha começar a ficar douradinha, tira-se do calor a panela e borrifa-se a mistura com farinha para engrossar. Retorna ao fogo e mais uma mexidela.
Acto contínuo, despeja-se o vinho tinto sobre o preparado de modo a cobrir tudo. Tapa-se e deixa-se cozer em lume brando. Panela tapada.
O vinho deve ser bom e de preferência encorpado.
Sempre que o bicho começar a ficar com a cabeça de fora, acrescenta-se água, ou vinho se ainda houver. Panela sempre tapada e lume brando.
Na vitrola coloca-se, por exemplo, o José Cid ao vivo no Campo Pequeno porque o outro já acabou a actuação. E prova-se o terceiro Campari para aferir se as cascas de tangerina ainda soltam aroma.
Quando a carne se começar a soltar dos ossos (se a galinha estivesse na eminência de morrer de velhice, isso pode demorar horas) destapa-se a panela para o molho engrossar como resultado da evaporação.
A panela há-de começar a cantar de forma diferente e esse é o momento de desligar e reservar.
Entretanto saltearam-se numa frigideira uns cogumelos inteiros com bacon e cebolinhas, em azeite com uma pitada de paprika.
Espalha-se a galinha numa travessa de bordas altas e decora-se com os cogumelos brilhantes até o brilho transformar uma simples galinha estufada num prato sumptuoso.
Manda a regra que se coma com arroz solto, mas eu prefiro, de longe, com batatas cozidas com pele e uns brócolos cozidos a vapor.
Acompanha-se com aquele vinho que sobrou da última vez que se acrescentou molho. Daí o cuidado em utilizar sempre um vinho bom. Não há que descurar.
Bom apetite.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

da cóltura



-Pai, estou um bocado triste.
-Porquê?
-Hoje comprei estes livros na escola e quando me fui vestir para a aula de educação física, resolvi deixá-los nos valores.
-E...
-A senhora lá disse-me que não era preciso porque ninguém rouba livros. Ninguém lhes liga.

da obra

(Muito provavelmente a imagem mais antiga da Mealhada)

A revista Sábado escreveu um artigo sobre as Câmaras Municipais "esquisitas", que também as temos no nosso país.
Entende-se por "esquisita" qualquer instituição pública que, ainda antes dos constrangimentos impostos pela conjuntura, já se dava ao desfrute de fazer contas.
Há de tudo: câmaras que pagam a tempo e horas (??), municípios onde os veículos afectos à presidência têm mais de cinco anos (!!) e em casos extremos são até partilhados por presidente e vereadores, autarquias que já faziam uma gestão contida dos consumos de electricidade ainda antes da chegada dos idiotas da troika...
Em duas páginas de notícia  truncada por uma foto de dimensões generosas e várias chamadas de texto, descobrimos que felizmente os casos retratados estão muito longe ser a imagem do país real. Está pois salvaguardada a hegemonia nacional: a maioria mantem-se do lado dos outros, dos que fazem obra podendo ou não fazê-la, dos que gastam por conta do futuro pois se é para os vindouros que se faz a obra, é normal que sejam os vindouros a pagá-la.
Mais uma vez ficamos mal na fotografia: aparentemente a Câmara Municipal da Mealhada paga aos fornecedores em média a dez dias da factura.
Que desperdício...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

dels caganers

Os Caganers são uns simpáticos bonecos de presépio espanhois.
Reza a lenda que cumprem desde o sec XVIII a produtiva função de adubar o solo "presepial" de modo a torná-lo rico e próspero.
Nenhum espanhol que se preze arrisca deixar o musgo à sua sorte: todos têm um caganer.
Como o nosso Natal vai ser cada vez menos natalício, propõe o chacomporradas que, à semelhança da árvore da Lapónia e do velhote da Coca-Cola (simbolos de economias pujantes, diz-que), passemos a enriquecer a nossa quadra com uma tradição de um país mais aconchegante: assim um país da nossa liga - um PIG como nós.
Vamos todos comprar um caganer e colocá-lo em posição de destaque na noite de consoada enquanto nos debatemos com uma bela posta de paloco da Islândia. Uma belíssima homenagem a todos quantos nos acham relapsos.
Quando acharmos que o mundo tem maturidade para tanto, podemos criar a nossa própria mascote natalícia. Manda a evolução da coisa que procuremos uma peça de artesanato das Caldas, que já ostenta um gorro "à Pai Natal". Um digno concorrente do caganer, apenas que em posição menos submissa - um altivo herdeiro das tradições ibéricas. Um sinal de respeito para quem nos quer manter pobres, submissos e deprimidos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

da deslocalização

(Foto roubada ao Dr. Pacheco Pereira por falta de lembrança para testemunhar o ocorrido - o sítio e o carro são os mesmos)

A partir das bordas de Setembro é vê-los, arrumado que está o carrito dos gelados, a sacolejar a lata.
"Quentes e boas" embora o calor da tarde nem sempre puxe por elas. Marcam presença na Praça oito de maio, praça do Sansão para os amigos, ainda o Verão aquece as lajes do pavimento. Oito de maio, consta, por homenagem à passagem por Coimbra do Duque de Saldanha, aquando das lutas liberais que sacudiram o país. Habitualmente dois ou três vendedores, nunca menos.
Hoje chove mas é verão. O de S. Martinho, diz apenas o calendário, porque tudo o resto o nega. Não está propriamente frio, mas a pinga a que alude o dia, hoje é mesmo de água.
Aperaltei-me de gabardina e rumei à demanda de castanhas. Tarde tristonha, calmaria no trabalho, o equivalente a tempo livre entre mãos. Nunca me apetrecho de guarda-chuva, mas desta vez fiz mal: o tempo está morno, mas a chuva que se aloja entre o colarinho e o pescoço é fria.
Na praça, em pleno dia de S Martinho, apenas um vendedor de castanhas. Atulhado de fregueses, o carrito baforejava gorgolejos de fumo para cima do povo enquanto a velhota reclamava da sorte "Logo hoje, que há negócio para dez, é que fugiram todos". E o povo, em magote à chuva, comentava a ausência de oferta à altura da procura.
De lado, o homem atiçava o lume. "Não dá para mais", explicava-se "só consigo assar cinco dúzias de cada vez".
Esperei.
Muito.
Encharcado e farto, colapsei quando sete pessoas à minha frente, uma moça atirou um "eu quero vinte dúzias".
Compra em grupo...
Será que foi só hoje? Será que a crise atiçou a tradição e a coincidência levou os outros vendedores a ficarem em casa com medo da chuva? A verdade é que quem estava encheu o papo e só não encheu mais porque, por falta de despacho, viu muitos fregueses abandonarem o recinto.
Afortunadamente, a Estação Doce fica-me em caminho e pude aquecer o corpo e a alma com uma meia de leite e uma torradinha de pão de forma onde detectei um pouco comum sinal de mistura; um toque crocante lambido de manteiga - da verdadeira.
Soube-me pela vida...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

do amor pela Patria ou simplesmente é tudo a mesma sucata


No parlamento italiano há cerca de duzentos deputados que carregam Berlusconi às costas apenas porque se forem marcadas eleições antecipadas antes de Janeiro podem não ser reeleitos e com isso perdem o direito à pensão vitalícia.
A Itália tem uma dívida externa que corresponde a cento e vinte por cento do produto interno bruto, num total de um vírgula oito triliões de euros.

sábado, 29 de outubro de 2011

do Messias


Antes de sermos pobres com tiques de rico, fomos apenas pobres. Tinhamos apenas o que o dinheiro permitia comprar e, tal como os pinguins, juntava-mo-nos, cuidando que do convívio nasceria a felicidade.
E de facto até nascia.
Foi o tempo das festas populares no verão, das tertúlias de café, dos grupos de amigos na praia, do cinema...
Ninguém se fechava em casa. Se calhar porque a falta dos artefactos modernos fazia da "casa" apenas o lar e não o moderno "playground" que hoje orgulhosamente ostentamos. Sem consolas, computadores, DVDs, internet, home cinemas, a casa era uma entidade... chata.
Desde muito cedo que o Cine Teatro Messias se encaixou na minha vida. Tenho como primeira memória as faustosas (pareciam-me na altura) festas de Natal das Caves Messias onde havia "à discrição" laranjadas Bussaco e pães de leite com fiambre e manteiga. E no fim distribuiam-se as prendas e um bolo-rei da Império por funcionário. E no dia de Natal à tarde havia sempre matinée: o Zorro, o Herbie...
Uma vez por ano havia um espectáculo dos miúdos da Casa do Gaiato em que toda a família se refastelava a ver umas rábulas inocentes e música. Uma noite (sem ser o Natal) em que me era permitido estar acordado até tarde: um bónus. As famílias ofereciam bolos e sandes para o lanche dos Gaiatos e eu abalava para casa a olhar para trás, considerando injusto não ter autorização para me deliciar no repasto dos artistas.
Foi o Cine Teatro Messias  que me proporcionou uma noite sem dormir quando, a contragosto, o meu irmão me levou a ver o Tubarão, tinha eu perto de dez anos.  Ou que me deixou dormir quando, vários anos mais tarde, me refastelei numa cadeira de pau que me pareceu um sofá e dei largas ao tédio assistindo ao filme A Missão com Roberto de Niro.
Vi no "Messias" o primeiro softcore (Calígula, de Tinto Brass) e o primeiro hardcore (desse não me lembro o nome, mas fui ver com o Tatá).
Foi o palco do "Messias" que acolheu as récitas do Grupo Recreativo e cultural Sem Nome, ainda nos finais de setenta, a única experiência cultural consistente que alguma vez existiu na Mealhada.
Os bancos das plateias, com assento de pau, contrastavam com os do balcão, almofadados e de preço superior. Do balcão havia quem atirasse coisas para a plateia, umas vezes rebuçados comprados no bar, outras vezes não. Berrava-se e assobiava-se de cada vez que a fita partia e no intervalo havia sempre que comentasse, doutamente, que o filme estava todo cortado, nunca se apurando concretamente com que intuito.
Foi no "Messias" que pisei um palco pela primeira vez, a tocar bateria num playback dos Whitesnake com o Tatá, o Deolindo, o Fernando e o Luis Carlos numa festa do liceu. E no mesmo local o voltei a pisar, vinte e tal anos depois (com a casa já remodelada e profundamente comovido) pela segunda e última vez, vestido de avestruz, numa festa do infantário do meu filho. Felizmente não há registos destes dois eventos.
E o Menino Mota que se sentava sempre na primeira fila, privilégio que lhe assistia por distribuir os cartazes dos filmes. E o Rui Paulo, que invariavelmente via os filmes numa das frisas, mas que no intervalo se juntava ao resto da maralha para discutir as cenas mais fantásticas da primeira parte. Discutia-se a relevância do "artista" (epíteto do actor principal) que raramente era uma mulher.
E no intervalo comprávamos vinte e cinco tostões de rebuçados ou caramelos enquanto os adultos (ou não) bebiam uma tacinha de Bomfinal rosé. Às vezes havia uma gasosa Bussaquina.
O "Messias", nessa época gloriosa, não integrava as rotas das melhores distribuidoras e os filmes apareciam por cá a destempo, mas isso era um pormenor de somenos importância.
O andar do tempo acabou por separar-nos e foi já em rota separada que o edificio acabou por fechar quando já não era segura a sua utilização. Antes, percorreu o calvário de degradação que Tornatore tão bem descreveu no Cinema Paraíso.
Em boa hora a autarquia pôs mão à obra e recuperou o espaço de forma magistral para ser reinaugurado como Teatro Municipal, passaram anteontem dez anos. O "Messias" é hoje uma excelente casa de espectáculos que honra a Mealhada e que tem apresentado uma cartaz multifacetado, dedicado aos vários públicos, mas sempre de altíssima qualidade. Pena é que as salas de cinema estejam em crise e logo quando finalmente estreiam na Mealhada os filmes que estreiam na capital. Ao mesmo tempo.
Hoje há festa e lá estarei, novamente comovido, para ouvir o José Cid, um amigo da casa.
Parabéns a todos nós.