terça-feira, 16 de abril de 2024

do Pudor

 

(imagem roubada ao blogue Pontos de Vista)

Hoje caiu mais um(a).
Isto num Governo que tomou posse há dias e que veio substituir um outro onde caíram tantos que arrastaram o próprio executivo para o buraco.
Não chegámos ainda ao ponto de ser preciso andar com uma lanterna para encontrar gente honesta, felizmente, mas vivemos tempos em que quem é íntegro pensa dez vezes antes de se meter nos meandros da coisa pública.
Há muitos anos, um amigo disse-me que a política não é para meninos, mas ficou o mais importante por dizer: a política é o refúgio de muita gente com "g" pequeno.
Hoje caiu mais um(a).
Sem surpresa. Era um caso problemático ainda antes de ter subido ao poder. Não que se questione a presunção de inocência, jamais, mas é lícito perguntarmos se não seria exigível um pouco de recato, um pouco de respeito por quem a escolheu e, porque não pensar assim, um pouco de vergonha na cara. Afinal, o caso que envolve esta senhora já foi tema de conversa antes.
E porque o assunto cabe no título do post, agora cá pelo nosso burgo, recebemos hoje a informação de que não tem pés para andar (os juristas que ponham um nome na coisa) a caldeirada que foi montada ainda no anterior executivo com denúncias anónimas (há quem diga que não são assim tão anónimas) e pontapés na porta de gente que, provou-se hoje, estava inocente e foi enxovalhada durante o processo, tudo em nome da luta pelo poder. 
Valia a pena pararmos para pensar.
Digo eu, que paro muito e penso cada vez menos... 

 

da inSofisticação

(depois de roçar a erva do quintal, o escriba refresca-se num Jacuzzi de arte)


"Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco."

Alberto Caeiro

domingo, 14 de abril de 2024

do tempo das coboiadas modernas

 

(imagem Disney Plus)

Porque, como dizia o outro, basta ter uma boa história e alguém a quem a contar.



do Nada


Ontem esteve calor.
Hoje, menos, mas ainda vai estar.
Amanhã já vai parecer novamente Primavera.
Sempre houve dias de Verão enfiados no Inverno e dias de Inverno enfiados no Verão, mas isto é diferente. Isto cheira a fim do mundo. Isto não é uma massa de ar quente que estacionou à nossa porta, igual a tantas massas de ar quente, ou frio, que o fizeram antes. Isto mexe connosco de uma forma diferente, porque a ciência nos diz que isto é diferente e o nosso cérebro não nos deixa descansar quando o que está em jogo é o fim do mundo. O nosso, porque o mundo já está habituado a ter gelo e fogo e nuvens e água e silêncio e barulho e vento e plantas feias que não precisavam de ser bonitas e plantas que se fizeram bonitas para sobreviver. 
Raio de metáfora, o fim do mundo, quando o mundo, queremos acreditar, somos nós.
Não somos. 
Mas se não conseguimos interiorizar que antes de cada um nascer era um nada ainda mais nada que quem morre porque nem memória carrega, porquê achar que, sem cada um de nós, o todo é menos todo? 
O verde da erva fica verde no tom que quer e as folhas, castanhas, quando lhes acaba a utilidade e isso é uma concessão à luz, isso é a vida a fazer o seu caminho, indiferente aos nossos remoques existenciais, demorando o seu tempo, o culto da indiferença que nos deixa tão incomodados.
Somos nada, mas esse nada é a nossa razão de existir.

  



sexta-feira, 12 de abril de 2024

da Distância

 

(Claude Monet: Impression - Sunrise)


Há experiências imersivas que só conseguimos obter se criarmos distância. 
Seja no tempo, seja no espaço, é muitas vezes a distância que deixa entrar a sensatez. 
 

quinta-feira, 11 de abril de 2024

do SI

 



Em torno de SI



Metáfora do eu enquanto base do crescimento para o mundo.
Da simples rotina de absorver do outro
O cerne da autocomiseração.
(suspiro)
Nada de bom cresce onde a terra só é.
Sentir é ser em sofrimento,
Cru.
Tosco.
E o centro do SI é oco.

 

 

quarta-feira, 10 de abril de 2024

do Passado e do Futuro

 



O sr Presidente da República condecorou postumamente à sorrelfa os membros do Conselho da Revolução no Verão passado.
As condecorações são manifestações públicas de apreço. Se são feitas às escondidas, só servem para alimentar o ego de quem as atribui.
Ora, como as condecorações são propriedade da República (logo do povo) o acto do senhor Presidente da República pode ser considerado desrespeitoso para com o povo que jurou servir no dia em que tomou posse.
Se o senhor Presidente da República entendeu que, ao actuar pela calada, escondia o facto de António de Spínola ser uma condecoração polémica, errou: a condecoração é datada e tal como outros, Otelo Saraiva de Carvalho por exemplo, que depois borraram a escrita, à época dos factos que levaram à escolha, a personalidade reuniu as condições necessárias para a Pátria lhe agradecer os serviços prestados.
Mal, senhor Presidente, novamente mal.

domingo, 7 de abril de 2024

da Escrita



No ”Masters of the air”(https://www.imdb.com/title/tt2640044/), quando Bucky regressa ao voo depois de ter sido “air exec”, uma espécie de coordenador que fica em terra, pediu para ser ele a escrever as cartas aos familiares dos militares mortos no bombardeamento falhado a Bremen. Escrever pelo próprio punho cria um laço. Não basta a assinatura, tão pouco o nome do remetente. Escrever pelo próprio punho une as duas pontas da corda.
A escrita está a perder-se. Não apenas o gesto, mas todos o processo acessório que ajudou a criar rituais por gerações.
Tenho um frasco de tinta preta Quink, a tinta recomendada pela Parker, ainda antes das canetas de tinta permanente carregarem cartuchos, pequenas ampolas de tinta, a roçar a esferográfica, que pouparam tantos dedos azuis, eu sempre preferi pretos, a tanta gente.
Encher uma caneta não é um trabalho isento de perigos; se os preceitos não forem honrados, pode-se borrar a escrita e nem o mata-borrão conserta o que o descuido tece.
O que se escreveu à mão, não se corrige sem deixar mácula. Talvez por isso se pense mais diante de uma folha de papel que diante de um teclado que tudo permite, até o anonimato: a nossa letra fica irreconhecível fora do papel.
É uma questão de personalidade.
Debitar escrita cursiva fazendo correr um fio de tinta e construir mensagens estruturadas que secam ao ar e cravam de forma indelével a ligação directa entre o cérebro e a mão, é algo que não nos podemos dar ao luxo de abandonar. É um retrocesso.
A escrita fez-nos seres solidários, como o fogo nos fez seres inteligentes e robustos. Um método de comunicação sem palavras escritas, retrocedendo ao percurso que nos aqui trouxe ao usarmos emojis é enrolar a passadeira da civilização e desrespeitar tantos, todos quantos, década a década, nos transformaram em algo mais que aquilo que hoje se teima em querer que sejamos.
Somos escrita, fomos grafia, seremos pó, mas nenhum écran carrega, apesar da tecnologia que incorpora, tanta civilização como um documento escrito à mão.


 

sexta-feira, 5 de abril de 2024

dos Filhos

(imagem tirada de Toy World Magazine)
Cá por casa há um filho. Não é meu, nem da mãe: é dele. Sempre foi. Nosso, é apenas o privilégio de o ver crescer. Os filhos dão-nos caminho para percorrer e ganas de nos mantermos à altura do desafio. São quem nos irá carregar para o futuro, quando nada mais restar que sombras do que fomos. Um amor maior que o amor, ele-próprio, uma constante palpitação no peito e um despudorado e fresco à vontade que nos permite sermos, com gosto, o que antes achávamos ridículo. Todos nós somos filhos. O Imaginarium, que ousou ser diferente, faliu. O único local onde o filho que me acompanhava, largava a minha mão e entrava por uma porta só dele. Sinto pena de todos quantos nunca usaram do Imaginarium...

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma crónica egoísta...



O jornalista Abílio Simões acompanhado de Messias Costa (pai deste vosso criado) a ouvirem atentamente um profissional de cozinha na Feira de Gastronomia de Santarém enquanto este tentava explicar o porquê dos leitões estarem tão chamuscados.

A foto foi surripiada ao Nuno Canilho.
Presumo que seja património do Jornal da Mealhada.




Vamos lá que isto não vai ser fácil.
A memória mais antiga que tenho do padre Abílio envolve uma moto e uma chegada mais ou menos espalhafatosa à capela de Sant'Ana. A moto, uma CZ ou uma Jawa ou nenhuma das duas (não tenho a certeza), não tinha travões - confirmou o próprio na altura. Ninguém se magoou.
Estava com um grupo de amigos à porta da capela e esperávamos pelo pároco para abrir a porta. Era dia de catequese. Correria o ano de setenta e cinco ou setenta e seis.


O padre Abílio Simões apresentou-se ao serviço nos finais de mil novecentos e setenta e quatro com o intuito de apascentar as almas da Vacariça e da Mealhada em substituição do padre Gil que se retirara para o Seminário, julgo eu.
Os tempos eram de tumulto e só me lembro que, pelo menos na parte que diz respeito à Mealhada, será exagero dizer que entrou com o pé direito. Assumamos que tinha uma personalidade onde se misturavam ideias conservadoras e ideias progressistas, isto falando dos tempos do PREC, obviamente.
Não interessa nada para aqui, mas lembro-me de ouvir o primeiro presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária da Mealhada, feroz militante da JSD, anos mais tarde, chamar-lhe carinhosamente "padre comunista". O eminente político era e é o meu irmão, caso alguém queira apresentar queixa pelo sucedido.
Comigo, o padre Abílio falhou profissionalmente porque apesar de catequisado, comungado, escuteirado e até iniciado no crime pela mão dele, não me restaram laços mais que os indeléveis ditados pelo baptismo em relação à Santa Madre Igreja.
Foi com assumido e rosnado desgosto que me casou sem que eu me confessasse ou sequer comungasse na cerimónia.
Um parentesis apenas para explicar a questão da iniciação ao crime de que falo acima: uma rádio pirata. Funcionou numa sala da capela de Sant'Ana a segunda rádio pirata da Mealhada, emissora cujas emissões irregulares tive o prazer de abrir em conjunto com um restrito grupo de radialistas. A rádio ELBA, emissora livre da Bairrada, nasceu da cabeça, do querer e do patrocínio de Abílio Simões e quero deixar aqui público e vivo testemunho que jamais houve qualquer interferência na linha editorial (inexistente) da emissora por parte da autoridade eclesiástica. Quer dizer: levei um puxão de orelhas quando disse no ar que Bob Marley fumava liamba enquanto recitava passagens da Bíblia.
Se fosse viva, a rádio Elba completaria amanhã vinte e oito anos de emissões efectivas. O dia nove de Fevereiro de mil novecentos e oitenta e seis foi Domingo de Carnaval e o rei, Lauro Corona, foi entrevistado para a rádio ELBA: ainda tenho a cassete. Um dia de glória, o único, em que estivemos um passo à frente da Rádio Livre da Mealhada. Abrimos as emissões com a entrevista.

Podia aqui falar das noites de copos no Lopes quando a RTL passava filmes softcore e onde um resignado pastor de almas assistia do canto do balcão, enfiado na sua condição de mortal, ao pecado na tela e nas cabeças de todos quantos, tal como ele, comiam uma dobradinha a desoras...

E podia falar de um cinco de Abril que calhou numa Sexta-Feira Santa. O meu pai fazia anos, encontrou o padre Abílio e convidou-o para jantar em semi-pecado: paella! Comeu carne e concedeu a bula e por aí não veio mal ao mundo. Pelo meio deixou a minha mãe sossegada pois afiançou-lhe que estava a pecar em consciência.

Podia aqui falar do lado mais fabuloso deste homem que marcou a nossa vida durante trinta e tal anos. Do seu apego ao rebanho. Da sua disponibilidade para acompanhar, no sentido literal do termo, todos quantos sofriam numa cama de hospital ou mesmo em casa quando a coisa era de cuidado. Não deve ter passado uma semana nesses trinta e tal anos que o padre Abílio não tirasse uma tarde para ir visitar os doentes ao hospital. Pelo menos uma tarde.
Um homem que se deu ao seu semelhante.

Podia falar das manhãs de Páscoa em que a sala lá de casa rescendia a cera e onde a mesa se vestia de iguarias finas para receber a cruz e posso dizer com assumido e galhardo orgulho que não houve um só ano que o padre Abílio não nos honrasse com um brinde de espumante e um bocadinho de bolo com queijo da Serra. Haja quem me contradiga...

No dia em que teve que encomendar o corpo do meu pai, o padre Abílio chorou em plena missa. Não terá sido a primeira nem a última vez, mas foi uma distinção que se me alojou no peito e que nunca mais daqui sairá.
Tinham desenvolvida uma relação mais chegada a partir do momento em que o meu pai, que eu só via na igreja em casamento ou funerais,  foi arrebanhado para fazer parte da comissão fabriqueira da Igreja de Sant'Ana - a igreja nova onde várias pessoas enterraram bastante tempo e o padre Abílio investiu muito do seu dinheiro. Presumo que mesmo muito. Dificilmente se saberá alguma vez quanto.

O padre Abílio Simões foi um ilustríssimo mealhadense, um homem de coração ENORME, um irmão do povo da Mealhada que morreu, passaram ontem sete anos e que receberá amanhã a homenagem que lhe é devida por ter sido quem foi.

Foi uma honra ter privado com ele.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

ainda o Natal


Sinto-me mais confortável a dar que a receber.
Dar é fácil.
Dar é, habitualmente, fácil.
Dá-se e pronto - já está.
A partir daí, podemos passar o resto da vida a duvidar do grau de autenticidade do agradecimento, mas está cumprido o nosso papel.
Receber implica demonstrações de sentimento. O que se dá é em si uma mensagem ao passo que o que se recebe deve despoletar um gesto que se quer límpido, natural e sincero.
Quem dá, passa a bola.
Quem recebe tem que sair a jogar...

domingo, 22 de dezembro de 2013

mais 1 conto de Natal




Serafim Cardoso era rico e morreu na cama na noite de Natal.
Sozinho.
O corpo foi encontrado, teso e frio, passava das onze da manhã do dia seguinte, pelo último empregado que ainda se mantinha ao seu serviço.
Ao serviçal, homem de pouquíssimas falas, ainda restaram lágrimas para derramar pela memória do patrão. Consta que chorou copiosamente, para espanto de quantos, poucos, assistiram ao funeral.
A família, três sobrinhos e uma irmã solteira, apresentaram-se na semana seguinte para tomarem posse do rico pecúlio que Serafim, industrial de mineração com prospecções em Africa, possuía.
O último serviçal, homem de poucas falas, respeitoso e respeitado, ofereceu café aos presentes enlutados e endereçou pêsames a quem não vira no funeral – todos.
O mais velho dos sobrinhos, advogado de província, com uma carteira de clientes restrita, porque diminuta, era o mais nervoso de todos.
“Antero, afinal onde está o advogado do tio? Daqui a pouco é noite e ainda tenho que fazer.”
O serviçal de poucas falas acrescentou apenas, impávido, que não haveria advogado. Tão pouco existia testamento ou bens para dividir.
Ao espanto inicial, seguiu-se uma acesa troca de palavras que, a avaliar pelo ruído que se ouviu nas redondezas, atingiu picos de tensão.
O serviçal, Antero, entregou a cada um uma carta fechada com o seu nome escrito na letra inconfundível do tio Serafim e um borrão de lacre com o selo e o nome de família.
Abertos os envelopes, novo momento de discussão.
“Um carro! Mas eu não quero o carro para nada…”
Um carro, um utilitário velho, para ser vendido e o resultado da venda dividido pelos herdeiros – era essa a herança.
Anexava um documento devidamente atestado pela firma de advogados que explicava o destino dado aos milhões de Serafim Cardoso, incluindo a casa e todos os terrenos.
Serafim Cardoso fora rico, mas morreu pobre… tinha torrado toda a sua fortuna.
A família enlutada abandonou a casa que lhes pareceu ainda mais sombria do que antes, não sem antes desejarem à alma do falecido um descanso sobressaltado por dores e penas imensas.
Antero, o serviçal que era homem de poucas palavras, sentou-se no sofá, aconchegou a lenha  na lareira, acendeu um charuto – dos do patrão – e tirou um envelope do bolso da casaca.
“Caro Antero,
Se estás a ler este documento é porque as coisas correram conforme previsto. Ficaste sozinho após a leitura do testamento.
Começo por te pedir desculpa, amigo sincero de tantos anos, por te ter deixado de fora deste esquema, mas isto envolvia alguma maldade e tu, meu fiel servidor, não sabes o que isso é.
Na garagem está estacionado o meu carro utilitário que, por ninguém o querer, agora é teu.
Na bagageira do carro está um saco com várias pastas. Cada pasta tem documentos respeitantes a investimentos que tenho, incluindo, em cada uma delas, uma procuração que confere ao seu portador a possibilidade de poder vender a totalidade dos bens que a essa pasta dizem respeito. Está tudo delineado na maior das legalidades de modo a que ninguém possa pôr em causa os negócios.
A tua última função será a de entregares cada uma das pastas às instituições que constam da lista anexa a esta carta. Depois disso ficas livre.
Na pasta que tem o teu nome vais encontrar um pequeno pecúlio que te permitirá viver de forma honesta e desafogada até ao fim dos teus dias.
Desejo-te uma vida longa e próspera.”
Antero, o serviçal de poucas falas, recostou-se no sofá, tirou duas baforadas do charuto e deu uma gargalhada sonora: “Que belo conto de Natal!” foi o que pensou.
De seguida levantou-se, atirou a carta e a lista das instituições para o lume, dirigiu-se à garagem, abriu a bagageira do utilitário, conferiu as pastas, fechou tudo, meteu-se no carro e desapareceu.
Nunca mais se ouviu falar de tal pessoa…

sábado, 20 de julho de 2013

Quinto

Imagem do artista enquanto jovem

No dia 19 de Julho de 2008 houve gala das Quatro Maravilhas da Mesa da Mealhada.
Armada a barraca em frente ao Teatro Municipal Messias, serviu-se leitão e espumante a um grupo, à época, ainda restrito de comensais.
Não fui à festa, apesar de convidado.
A memória não me permite garantir se ainda ponderei e depois mudei de ideias ou se simplesmente assumi não ir, mas a verdade é que saí de casa, a pé, e acabei sentado na esplanada dos Amigos d'Alex a iniciar uma noite que mudou radicalmente a minha vida.
Há partes nebulosas neste episódio e dou por mim a dada altura em amena cavaqueira com o Menino Mota, pesaroso e enraivecido porque, pela primeira vez na sua vida, a Mealhada lhe tinha vedado a entrada num evento. E para mais com leitão...
Fiquei furioso e a primeira reacção foi "Queres lá ir? Vamos lá e entras comigo.", mas não quis.
Não insisti e acabámos por estagiar por ali. Não havia leitão, mas houve uma Sumol e uma sandes de fiambre e muita conversa.
E o desejo do Menino de aparecer na internet.
Na internet.
A coisa passou-se, o Menino recolheu ao lar e eu estendi-me até ser já Domingo.
Chegado a casa, de madrugada, sentei-me ao computador e nasceu o Chacomporradas.
Vinte de Julho de dois mil e oito, faz hoje cinco anos.
O primeiro post foi este.
O Chacomporradas teve, e ainda hoje tem, uma importância fulcral na minha vida.
Proporcionou-me alguns momentos de subido prazer de escrita e proporciona-me actualmente momentos de subido prazer de leitura.
É um amigo. Uma companhia onde regresso amiúde em busca de conforto.
O Chacomporradas é datado, é temporal, mas é universal e, na esmagadora maioria dos seus posts, é um produto original. É uma obra que me orgulha.
Está em periodo sabático, mas tenho a garantia (é tão bom ter garantias) que basta dar à chave para de novo se iluminar e começar a distribuir luz.
Feliz aniversário, velho amigo. 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Pergunta de algibeira



Se o senhor da foto não fosse candidato a uma autarquia nas eleições de Outubro próximo, será que faria o comentário que fez hoje ao Ministro das Finanças?

felicidade



Uma referência das antigas.
Vi-o ontem na RTP e adorei revisitar as ideias, as teorias e as alucinações.
A última vez tinha sido no Pessoal e Transmissível do Carlos Vaz Marques.
É um homem feliz.
Ainda mais.

domingo, 5 de maio de 2013

da eterna busca pelos caminhos torcidos que conduzem à felicidade



Hoje é dia de cortejo da Queima das Fitas em Coimbra.
Dia de excessos, dia de contestação, dia de celebração e festejo. De orgulho, de libertação, dia grande.
Hoje, como em tempos foi, é novamente difícil obter um grau académico. Não apenas pela dificuldade inerente ao estudo, mas acima de tudo pelo esforço exigido às famílias.
Hoje, e isso nunca assim foi, além do esforço necessário à prossecução da carreira académica, é imperativo lidar com a maior das incertezas: um futuro recheado de portas fechadas.
Salvaguardando as pouquíssimas excepções, esta geração altamente treinada debate-se com o resultado das suas próprias competências: o excesso de oferta.
O excesso de oferta não é conjuntural. O excesso de oferta é o que permite à procura poder escolher os melhores e com isso evoluir e criar valor. Abrir caminhos para o futuro.
Chegados aqui, eis-nos em cima da linha que delimita os paradigmas. Se antes só estudava quem podia e isso era garantia de pleno emprego, hoje todos podem estudar e a garantia é nula.
Mas há uma coisa que não é nula: o conhecimento. O conhecimento estrutura a personalidade e queima etapas no desenvolvimento futuro. O conhecimento predispõe para mais conhecimento e conhecimento é poder. Conhecimento é liberdade.
Quando acabei o décimo segundo ano, o meu caminho estava traçado. Cursaria linguas e há trinta anos atrás isso significava apenas uma coisa: ser professor. A primeira carreira que despontou para o fenómeno do desemprego. Aquilo que fazia soar os alarmes já nos idos do meio dos anos oitenta. Ser professor era marchar em direcção ao abismo.
O preconceito venceu. Estudei gestão hoteleira, mas realizo-me a leccionar. E julgo, modéstia à parte, que sou melhor formador que hoteleiro.
Torceu-se o percurso, mas o resultado acabou por aparecer.
E é isso que me faz estar aqui, hoje, a ver os estudantes subirem a colina e a pensar em como às vezes, as grandes crises podem parir novos paradigmas.
Hoje, e porque a realidade acabou com a violência de se escolher um curso primeiro pela saída profissional e só depois, às vezes muito depois, pelo prazer, pelo que se gosta. Hoje, desejo que o futuro do mundo passe primeiro pelo prazer de se aprender, pelo prazer de se fazer o que se gosta, pelo encerrar do ciclo com base na felicidade própria e na construção estruturada do caracter.
Já que nada dá garantias de nada, tudo é garantido. Logo, escolham o que vos der prazer.
Utilizando uma figura muito querida aos treinadores de futebol, vão lá para dentro e divirtam-se.
Os resultados acabarão por aparecer.
E convém nunca perder de vista a ideia de que temos a vida toda para sermos infelizes - ou não!

segunda-feira, 25 de março de 2013

Diminuir a bitola...


Comuniquei ontem à família e passo agora a oficializar.
Deixei de fumar.
Estou aos poucos a tornar-me um homem grande, responsável, se for preferível o epíteto.
Vou guardar religiosamente o "humidor" com os charutos que me restam, mimá-los, mudar-lhes a água, controlar-lhes a humidade de modo a que durem tanto como eu, pelo menos. Devo-lhes esse respeito. É sabido que um charuto, desde que devidamente mantido, pode durar décadas.
Se o meu filho um dia decidir fumar charutos, deixo-lhe em tabaco um pequeno legado que já hoje vale umas largas dezenas de euros, talvez centenas.
Nunca fui viciado. Fumei sempre por prazer e tirei prazer da esmagadora maioria dos charutos que fumei na vida.
Sem premeditação, acabei por me aperceber que, de forma natural, comecei a fumar cada vez mais espaçadamente.
Um charuto é, mais que um prazer, uma experiência sensorial. Um gozo intelectual.
Fumei-os sempre a valerem por si só e por si só valeram tudo o que esperei que me proporcionassem.
"O excesso de gozo é dor" disse um dia Barbosa du Bocage e por aí me encaminhava.
Hoje, fumar um charuto apressa-me o batimento cardíaco, provoca-me desconforto no estômago, aumenta-me de imediato a tensão arterial e, mesmo que seja fumado de manhã, diminui-me a qualidade do sono. Até o sabor na boca na manhã seguinte incomoda mais que antes.
O incómodo começa a atingir o mesmo patamar do prazer e não me posso permitir que isso aconteça ou, parafraseando o grande Keith Floyd, "I'm sick and tired of waking up sick and tired."
Vou fechando algumas alas do castelo para que as outras possam manter-se em melhor estado.
Estou a envelhecer e sinto-me perfeitamente confortável com isso.
Fumei um bom punhado de marcas e, porque tenho que ser criterioso, um grande bem-haja ao sr Alexandre Dumas que escreveu o Conde de Montecristo, ao som da leitura do qual foram enrolados os mais fantásticos charutos que tive o prazer de fumar, um aceno de saudade a William Shakespeare por ter emprestado o nome da sua mais afamada história de amor aos charutos mais elegantes que fumei, uma vénia aos irmãos Quintero que me permitiram fumar tabaco cubano a preços menos escandalosos e um muito especial agradecimento à minha mulher que me ofereceu, se não todos, praticamente todos os Cohibas que com subida honra acendi.
Agora, em frente, que atrás vem gente...
   

domingo, 17 de março de 2013

da Superação



Ouvi hoje uma história de amor a uma causa, de abnegação, de superação, de transcendência, enfim, de puro altruísmo.
Foi-me contada na segunda pessoa, mas tive o prazer de momentos antes ter conhecido o protagonista.
Um treinador de uma modalidade individual amadora de desporto olímpico, agarrou uma atleta grande do nosso país pouco tempo depois do seu treinador ter morrido.
Criou os laços comuns que quem já viu o lado mais pessoal dos atletas sabe que existem, cimentou esses laços e preparou-se para qualificar a atleta para uma olimpíada.
Nesse interim, sofre um acidente de mota que lhe deixa uma das pernas bastante danificada e a necessitar de várias cirurgias para poder um dia voltar à sua função.
Entre o processo de recuperação e o acompanhamento da sua pupila, opta pelo segundo cenário e entrega-se, com grande esforço pessoal e em provado sofrimento ao seu objectivo.
A atleta qualifica-se para a olimpiada e o treinador atrasa mais uma vez as suas cirurgias. Desloca-se de muletas e tudo indica que tem dores.
Dois dias antes de uma das provas, morre-lhe a mãe, desloca-se a Portugal para o funeral, não sem antes prometer à sua pupila, ainda uma menina, que lá estará para a apoiar e para garantir que todo o trabalho anterior não terá sido em vão.
E no dia da prova ei-lo no seu local de trabalho.
Finda a olimpiada, não me interessou saber se houve ou não medalha, penso que sim, regressa a casa e começa o seu calvário.
A sua decisão de adiar a cirurgia deixou-lhe a perna mais curta e inicia um lento e penoso processo de estiramento dos músculos de forma mecânica e gradual. É-lhe implantado um aparato metálico que substitui temporariamente o osso esmagado e que estabiliza o membro.
Hoje continua de muletas e, embora já não seja treinador e esteja de baixa enquanto seleccionador da modalidade, acompanha as provas que se realizam. Coube a sorte a Coimbra este fim de semana.
Falta-lhe mais uma bateria de cirurgias, entre elas a de remoção do tal aparato de ferro que levará ao corte de um tendão que, caso não corra como previsto, lhe tirará de vez a possibilidade de voltar a andar normalmente. 
Tudo por amor à sua arte.
Avassalador.        

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Horsepower...



Há duas coisa que não como: lampreia e coelho. Poderia falar de fígado, mas não seria honesto porque consumo pastas e enchidos que levam fígado. Só não como fígado simples, logo, não conta.
Se me oferecerem um pedaço de, vamos supor, empada de peixe, eu provo e, se gostar, como. Se me disserem a seguir que é de lampreia, limitar-me-ei a dizer que é bom e que afinal do que não gosto é de lampreia como já comi antes - com arroz. E o mais certo é comer empada de lampreia daí em diante. Arrisco até dizer que poderei voltar a tentar o arroz.
Se me fizerem o mesmo teste com coelho, provavelmente acharei delicioso, mas depois de saber a verdade, recusar-me-ei a comer mais. Ficarei até constrangido.
Porquê?
Porque de lampreia não gosto do sabor e coelho não como por preconceito. Não me consigo ver a comer o animal: é superior a mim.
Passa-se o mesmo com a questão da carne de cavalo incorporada em produtos de carne de vaca.
Se colocarem, sem informar, perú numa empada de galinha ou pedaços de frango misturados num arroz de pato, poderá considerar-se que existe adulteração do produto e os consumidores têm o direito de se sentir enganados, mas difcilmente isso criará problemas de maior. Em termos legais é adulteração, mas não há preconceito.
Tendo sempre como ponto de partida a certeza de que a carne de cavalo incorporada nos produtos em apreço reúne todos os requisitos previstos na lei como necessários para ser considerada apta para a alimentação humana, o problema resume-se à informação prestada.
A carne de cavalo é utilizada em muitos países na alimentação humana e Portugal não é diferente: existem até talhos especializadas na sua comercialização. É o que os americanos apelidam de GRAS, sigla de "generally reported as safe".
Legalmente, do rótulo de um produto alimentar composto deve constar, entre outras coisas, a lista dos ingredientes nele incorporados. Por esta ordem de ideias, e mantendo a premissa da salvaguarda da saúde pública e da respectiva rastreabilidade dos ingredientes, uma lasagna de de cavalo é um produto tão bom para o consumo humano como é uma lasagna de vaca ou como uma lasagna de porco. Desde que a informação conste dos ingredientes, está legal.
É aí que entra o preconceito.
Mesmo com todos os aspectos legais assegurados, manda o preconceito que a menção à existência de um produto incorporado que não seja consensual, tenha direito a chamada de atenção na embalagem.
Assim, mais do que destruir alimentos perfeitamente sãos ou, pior ainda, supor que são bons para os pobrezinhos, porque não colocar bem visível a informação de que têm incorporada carne de cavalo e deixar aos produtores e principalmente aos consumidores a possibilidade de decidirem o seu destino: as prateleiras dos supermercado, as latinhas de Pedigree Pal ou a incineradora.
Não há-de demorar muito tempo para que estes preconceitos sejam vencidos pela escassez de produção que, à falta de alternativa, nos colocará na boca um conjunto de coisas altamente nutritivas que hoje consideramos hediondas como sejam insectos, larvas ou roedores.
Quanto à questão do ministro alemão que queria dar as lasagnas aos pobres, coloco-a na prateleira dos lugares atrás dos postes no estádio de Alvalade que alguém pretendia oferecer aos invisuais: uma coisa a repensar.
O andar do mundo vai-nos fazer cair os preconceitos um a um...   

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

do Equilíbrio - Melhor; da diferença entre teimosia e lucidez.


-Bom dia senhor professor.
-Bom dia, senhor Pedro. E olhe que o dia hoje está bonito.
-Está bom para um passeio.
-Para quem pode...
-O senhor pode. Tem é que arranjar uma bengala em vez do guarda-chuva; um dia destes espalha-se...
-Bengala não. Bengala é sinal de velhice!

O professor Pedro Duarte é residente no hotel há mais de dois anos. Começou por passar temporadas, mas depois acabou por ficar.
Esteve acamado desde o dia onze de Novembro até há meia duzia de dias atrás como resultado de uma queda que lhe provocou uma mialgia de esforço na perna esquerda.
Já no Inverno de 2011 tinha sido operado à prostata e fez a recuperação toda no hotel. Sem ajudas.
É um homem rijo, seco, que não deve pesar mais que cinquenta quilos, apesar de ser relativamente alto.
O professor Pedro Duarte acha que bengala é sinal de velhice.
O professor Pedro Duarte vai fazer no próximo dia vinte e oito de Agosto, oitenta e cinco anos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Uma cóboiada das antigas, mas desta vez a sério.


Sabia-se que Tarantino acabaria, mais cedo ou mais tarde, por bater no tecto.
Django Unchained (libertado, na versão portuguesa) é realmente um hino ao cinema.
Um hino ao cinema enquanto arte, enquanto entretenimento, enquanto agregação de memórias.
É um filme brutal, carregado de simbolismo, carregado de cinema, carregado daquilo que faz o cinema e que faz aquilo que são as pessoas que gostam de cinema.
Nem por um momento nos conseguimos esquecer que estamos perante um Tarantino, mas basta darmos um pontapé numa pedra para encontrarmos, sem esforço um dos Sergios que transformaram em arte as cóboiadas feitas em Italia ou nas planícies de Almeria.
Mas desta vez Quentin Tarantino foi mais longe ao ponto de ser preciso trabalhar um bocado para se conseguir encontrar em toda a história do cinema um retrato tão fiel da época pré guerra de secessão. Um retrato cru e rigoroso do ambiente que se vivia nos campos de algodão do sul dos Estados Unidos.
Juro que no final esperava uma saída em direcção ao pôr do sol ao som do mais ausente dos presentes, Ennio Morricone, mas até aí fui surpreendido.
A gargalhada final dá-se ao som da música de Trinitá, o cow-boy insolente.
É um aperto no coração.
E nem sequer falei na história ou nos desempenhos fabulosos de Christoph Waltz e Samuel L Jackson, isto para começar, porque se entramos por aqui só paramos nos Oscars.
Grande filme.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Como morrer sem stress, guia prático ilustrado.


Surreal.
Aterrei na SIC Radical num programa onde se estavam a abater (??????) cordeiros
num estúdio de televisão ao vivo.
A apresentadora, a falar baixinho e pausadamente para a plateia, explica que os técnicos que vão fazer o abate são experientes e competentes e que vão fazer o serviço de modo a que os borregos morram o mais humanamente (sic) possível. Claro que não explica o que quer dizer "morrer humanamente", mas também não sei se quero saber.
O processo inicia-se com o técnico a explicar que o primeiro borrego vai levar um choque de alta voltagem que o vai deixar atordoado para não sofrer. Infelizmente esquecem-se de informar o bicho e este leva o choque e, ao invés de ficar atordoado, foge pela sala fora com o técnico experiente a correr atrás dele enquanto um outro técnico explica que provavelmente a máquina dos choques não funcionou.
Apanhado o infeliz, e já sob a supervisão do veterinário que se assegura que o bicho,  um bebé que levou um choque e foi agarrado por dois técnicos dez vezes maiores que ele, não está em stress, vão buscar uma pistola e espetam-lhe um balázio na moleirinha que o deverá matar.
Mais uma vez se esquecem de fazer um briefing com o animal porque, apesar do técnico garantir à apresentadora que desta vez está morto, esperneia que nem um condenado enquanto o penduram de cabeça para baixo e lhe abrem as goelas com uma faca para que se esvaia em paz e sem stress.
Quando desliguei a televisão, enojado, o desgraçado já tinha despejado umas boas golfadas de sangue e, apesar de atordoado e morto, ainda esperneava.
Mas este tipo de programas interessa exactamente a quem?