Na cartomante:
-Até aos quarenta anos vai sofrer imenso com falta de dinheiro.
-E depois? E depois?
-Depois habitua-se
Na cartomante:
-Até aos quarenta anos vai sofrer imenso com falta de dinheiro.
-E depois? E depois?
-Depois habitua-se
Restou-me virar os olhos ao chão e assumir a soberba, a arrogância e o egoísmo.
Não que mo tenham apontado, mas cabe-nos olhar para os nossos actos e medir a consequência da sua dimensão.
Cheguei à fila dos carritos para despejar o veículo onde antes repousaram meia dúzia de compras.
Era o carrito mais pequeno, o que só tem uma fila e a fila estava ocupada.
Um velho de muletas, com as muletas dentro do carro e o carro a servir de andarilho, tentava sair de marcha a ré.
Esperei sem alvoroço e, é verdade, não tinha pressa, mas a pressa é uma coisa que se ganha num simples piscar de olhos ou, porquê negar, quando diante de nós alguém aparenta ter ainda menos pressa.
E a meio do trajecto, ainda entre guias, o idoso resolve ser audaz e dar a volta ao carrito para poder sair de frente do estacionamento.
Um velho, manco, entre duas guias metálicas que confinavam o estacionamento, a ousar uma manobra perigosa.
Não tinha como correr mal.
O condutor, apesar das limitações, não era desprovido e mostrou que afinal não tinha que correr mal. O carrito passava debaixo das guias e isso permitia a manobra.
Mas o tempo escorria.
E eu a gozar o prato. Eu, que já ouço amiúde a frase "olha que não vais para novo", armado em Tarzan Taborda, deixei o homem à sua sorte.
"O senhor precisa de ajuda?" lançou uma cidadã que passava.
Não precisava. Estugou o passou, virou a viatura e foi-se embora para superfície comercial, a manclitar acima e abaixo, agarrado ao carrito, à laia de andarilho.
Restou-me virar os olhos ao chão.
Nem por um momento pensei que ajudar aquela alma teria sido mais proveitoso para ambos ou, num exercício de auto-comiseração porque, já mo têm dito, "não vou para novo", ao menos ter-lhe perguntado se precisava de ajuda.
Somos todos uns campeões até a vida nos mostrar que não.
O cantor Tony Bennett combateu os nazis na longa batalha das Ardenas. Na noite de Acção de Graças de 1944, convidou um soldado negro para se juntar a ele na mesa do jantar. No dia a seguir foi enviado para um campo de concentração que tinha sido libertado e ficou a identificar e embalar mortos até regressar a casa.
Não temos como ressarcir os povos cujos países ocupámos.
O passado é para assumir e analisar, mas nada o pode mudar.
Já no que respeita à devolução do que pode ser devolvido, isso pode ser feito e se do acto resultar alguma mitigação, melhor, mas pode e deve ser feito porque pertence à História desses países e mesmo que conjunturalmente tenho pertencido também à nossa História, deve descansar no local de origem.
Pelo que tenho lido, Portugal está a fazer um levantamento do património trazido das ex-colónias com o objectivo de, primeiro, o conhecer e, depois, espera-se, auscultar os países de onde foi trazido no sentido de saber se pretendem a devolução para enriquecerem o seu espólio, se pretendem que fique onde está para documentar a História.
É um enorme passo de reconhecimento.
Uma planta pode ser mantida eternamente num vaso, mas o seu lugar natural é a terra, o campo. Não fica menos bonita no vaso, mas a terra que a sustém não pertence ao vaso - foi lá colocada.
A vida dos povos faz-se sempre no presente, mas usa o passado como a maneira mais natural de garantir a cabeça erguida e de evitar, embora isso nem sempre aconteça, repetir erros e omissões. É esse o papel da memória e a História, a dos actos e a das obras, não é mais que a terra que mantém vivas as raízes.
O lado bom do passado é que nos deixa sempre aberta a possibilidade de o repetirmos ou não consoante nos seja mais útil, mas para isso temos que fazer uso dos seus ensinamentos - jamais o esconder ou adaptar.
O filme começa e, durante dezassete deliciosos minutos, só se ouve a cozinha. Sim. Podemos fechar os olhos e perceber, para quem ainda não percebeu, o porquê da cozinha francesa ser a mais requintada, completa, icónica, e ritualizada de todas as cozinhas do mundo delicioso.
Numa cadência vagarosa, sincopada, ritmada pelo entrechocar dos tachos e pelo crepitar dos vários calores, o milagre dá-se ali, diante dos nossos olhos que, à falta de melhor, adivinham os aromas e as consistências.
Um ritual de elegância, fogo, gelo, vida e morte em nome da vida e do prazer, do supremo prazer do usufruto.
Parei, sem fôlego, o filme que a França vai levar aos óscares no próximo ano, para vir aqui escrever o post.
Continua...
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido não racionou bacalhau fresco para que nunca faltasse Fish and Chips aos ingleses. Esta medida não foi tomada apenas porque é um prato barato e popular, mas essencialmente porque a sua ausência poderia ter resultados catastróficos na moral da população.
Por aqui se vê a importância da coisa.
O prato, que ganhou fama no sec XIX, é composto por batatas "Ponte Nova" (de Pont Neuf, a ponte mais antiga de Paris, local onde se vendiam) e bacalhau fresco passado por polme e frito, "Fried Fish, Jewish Style", um prato levado para o Reino Unido no sec XVI pelos judeus sefarditas portugueses, que a Santa Inquisição fez o favor de correr daqui para fora, num momento da nossa História que ainda hoje nos deve envergonhar e fazer torcer a orelha.
Além do chá e da compota de laranja, também fomos nós que ensinámos os ingleses a comer com as mãos.
Este ano é um ano tão bom como outro qualquer, mas em melhor, para se começar a olhar a História dos nossos últimos cem anos e para a explicar aos mais novos.
É verdade que há quinhentos e picos anos fomos donos do mundo, que construíamos os melhores barcos que o dinheiro pode comprar e que fomos, em grande parte, responsáveis pelo que hoje se chama globalização.
Mas isso ensina-se num ano lectivo e não existe o perigo de voltar para nos assombrar a vida ou para a tornar melhor.
Já o obscurantismo de praticamente metade do século vinte, a ditadura que ainda hoje nos faz olhar por cima do ombro, o nosso tão característico olhar de baixo para cima perante o poder, a resiliência conformada aos tropeções da vida e o fado, o destino colado ao coração, isso, sente-se a cada dia que passa, pode facilmente voltar e não sei se teremos forças para evitar que se instale.
Os novos têm que saber o que é não ter liberdade de expressão, têm que perceber que os bufos não eram apenas queixinhas. Têm que saber que antes de setenta e quatro também havia corrupção, que já havia fake news e que era perigosa qualquer tentativa de as corrigir, que a narrativa nos espezinhou ao ponto de acharmos que pobreza e humildade eram sinónimos e que decência era um atributo de quem cumpria os mandamentos e as obrigações.
A liberdade permite que tudo se possa experimentar e a democracia, por definição, não fecha portas - só a consciência, o conhecimento e o espírito crítico consegue destrinçar o que é daninho do que é são.
E sem conhecimento, o espírito crítico é pífio. Mais vale não ser.
O ensino da História contemporânea, sem artefactos nem ideologias, sem deve nem haver, limpa, factual, é uma obrigação da sociedade para com as novas gerações.
Estamos a falhar.
Se, de surpresa, se entregasse uma folha de papel a todos os jovens com, digamos, dezasseis anos, e lhe fosse pedido que enquadrassem num ensaio o contexto da ditadura e os acontecimentos de setenta e quatro, temo que o resultado fosse desastroso.
Quem não conhece o mal, convive com ele e deixa-o crescer.
Algures na China, uma ditadura, uma estação homenageia o sofrimento das mulheres.
Hoje caiu mais um(a).
Isto num Governo que tomou posse há dias e que veio substituir um outro onde caíram tantos que arrastaram o próprio executivo para o buraco.
Não chegámos ainda ao ponto de ser preciso andar com uma lanterna para encontrar gente honesta, felizmente, mas vivemos tempos em que quem é íntegro pensa dez vezes antes de se meter nos meandros da coisa pública.
Há muitos anos, um amigo disse-me que a política não é para meninos, mas ficou o mais importante por dizer: a política é o refúgio de muita gente com "g" pequeno.
Hoje caiu mais um(a).
Sem surpresa. Era um caso problemático ainda antes de ter subido ao poder. Não que se questione a presunção de inocência, jamais, mas é lícito perguntarmos se não seria exigível um pouco de recato, um pouco de respeito por quem a escolheu e, porque não pensar assim, um pouco de vergonha na cara. Afinal, o caso que envolve esta senhora já foi tema de conversa antes.
E porque o assunto cabe no título do post, agora cá pelo nosso burgo, recebemos hoje a informação de que não tem pés para andar (os juristas que ponham um nome na coisa) a caldeirada que foi montada ainda no anterior executivo com denúncias anónimas (há quem diga que não são assim tão anónimas) e pontapés na porta de gente que, provou-se hoje, estava inocente e foi enxovalhada durante o processo, tudo em nome da luta pelo poder.
Valia a pena pararmos para pensar.
Digo eu, que paro muito e penso cada vez menos...
Há experiências imersivas que só conseguimos obter se criarmos distância.
Seja no tempo, seja no espaço, é muitas vezes a distância que deixa entrar a sensatez.
Em torno de SI
Metáfora do eu enquanto base do crescimento para o mundo.
Da simples rotina de absorver do outro
O cerne da autocomiseração.
(suspiro)
Nada de bom cresce onde a terra só é.
Sentir é ser em sofrimento,
Cru.
Tosco.
E o centro do SI é oco.