domingo, 22 de dezembro de 2013

mais 1 conto de Natal




Serafim Cardoso era rico e morreu na cama na noite de Natal.
Sozinho.
O corpo foi encontrado, teso e frio, passava das onze da manhã do dia seguinte, pelo último empregado que ainda se mantinha ao seu serviço.
Ao serviçal, homem de pouquíssimas falas, ainda restaram lágrimas para derramar pela memória do patrão. Consta que chorou copiosamente, para espanto de quantos, poucos, assistiram ao funeral.
A família, três sobrinhos e uma irmã solteira, apresentaram-se na semana seguinte para tomarem posse do rico pecúlio que Serafim, industrial de mineração com prospecções em Africa, possuía.
O último serviçal, homem de poucas falas, respeitoso e respeitado, ofereceu café aos presentes enlutados e endereçou pêsames a quem não vira no funeral – todos.
O mais velho dos sobrinhos, advogado de província, com uma carteira de clientes restrita, porque diminuta, era o mais nervoso de todos.
“Antero, afinal onde está o advogado do tio? Daqui a pouco é noite e ainda tenho que fazer.”
O serviçal de poucas falas acrescentou apenas, impávido, que não haveria advogado. Tão pouco existia testamento ou bens para dividir.
Ao espanto inicial, seguiu-se uma acesa troca de palavras que, a avaliar pelo ruído que se ouviu nas redondezas, atingiu picos de tensão.
O serviçal, Antero, entregou a cada um uma carta fechada com o seu nome escrito na letra inconfundível do tio Serafim e um borrão de lacre com o selo e o nome de família.
Abertos os envelopes, novo momento de discussão.
“Um carro! Mas eu não quero o carro para nada…”
Um carro, um utilitário velho, para ser vendido e o resultado da venda dividido pelos herdeiros – era essa a herança.
Anexava um documento devidamente atestado pela firma de advogados que explicava o destino dado aos milhões de Serafim Cardoso, incluindo a casa e todos os terrenos.
Serafim Cardoso fora rico, mas morreu pobre… tinha torrado toda a sua fortuna.
A família enlutada abandonou a casa que lhes pareceu ainda mais sombria do que antes, não sem antes desejarem à alma do falecido um descanso sobressaltado por dores e penas imensas.
Antero, o serviçal que era homem de poucas palavras, sentou-se no sofá, aconchegou a lenha  na lareira, acendeu um charuto – dos do patrão – e tirou um envelope do bolso da casaca.
“Caro Antero,
Se estás a ler este documento é porque as coisas correram conforme previsto. Ficaste sozinho após a leitura do testamento.
Começo por te pedir desculpa, amigo sincero de tantos anos, por te ter deixado de fora deste esquema, mas isto envolvia alguma maldade e tu, meu fiel servidor, não sabes o que isso é.
Na garagem está estacionado o meu carro utilitário que, por ninguém o querer, agora é teu.
Na bagageira do carro está um saco com várias pastas. Cada pasta tem documentos respeitantes a investimentos que tenho, incluindo, em cada uma delas, uma procuração que confere ao seu portador a possibilidade de poder vender a totalidade dos bens que a essa pasta dizem respeito. Está tudo delineado na maior das legalidades de modo a que ninguém possa pôr em causa os negócios.
A tua última função será a de entregares cada uma das pastas às instituições que constam da lista anexa a esta carta. Depois disso ficas livre.
Na pasta que tem o teu nome vais encontrar um pequeno pecúlio que te permitirá viver de forma honesta e desafogada até ao fim dos teus dias.
Desejo-te uma vida longa e próspera.”
Antero, o serviçal de poucas falas, recostou-se no sofá, tirou duas baforadas do charuto e deu uma gargalhada sonora: “Que belo conto de Natal!” foi o que pensou.
De seguida levantou-se, atirou a carta e a lista das instituições para o lume, dirigiu-se à garagem, abriu a bagageira do utilitário, conferiu as pastas, fechou tudo, meteu-se no carro e desapareceu.
Nunca mais se ouviu falar de tal pessoa…

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