Sábado, 31 de Dezembro de 2011

do encerramento


A D. Julia reformou-se hoje.
Fomos colegas de trabalho durante quase dezoito anos e embora não fosse uma funcionária excepcional, cedo percebeu que eu compreendi que às vezes existem coisas na nossa vida que nos condicionam as atitudes e a entrega.
Tivemos momentos bons e momentos menos bons, mas confirmei hoje que os bons prevaleceram.
Como já não nos iríamos encontrar, deixou-me esta nota e uma lembrança feita por ela.
Dificilmente alguém me concederia um final de ano melhor.
Feliz dois mil e doze.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

do Portão

As quintas-feiras chegavam a ser dramáticas.
Nesses tempos em que o convívio era moeda corrente na relação entre as pessoas, as quintas-feiras destoavam.
À quinta, o Portão estava fechado.
Claro que depois vinha a sexta - o início da girandola que se estendia até ao final da tarde de domingo, tantas vezes selado com um chá e uma torradinha para mitigar a ressaca.
A Mealhada era o centro do mundo nas noites de fim de semana e o Portão era o centro da Mealhada. Tudo se passava ali e todos por ali passavam.
A noite nascia ao fundo das escadas, no ambiente de madeiras escuras que nasceu como café/restaurante mas rapidamente passou a café/café onde se serviam refeições. E pastelaria própria.
No inverno desfiava-se o tempo a contraluz ao calor da lareira, mas mal abria o céu, saltávamos cá para fora. Era nos degraus da porta principal que se encostava o Ricardo a distribuir bocas por quem passava. Era junto à porta que o Paulo César encostava o Starlet da mãe para se gabarolar de um turbo que todos sabíamos não existir debaixo do capot. Até que um dia chegou o turbo, sob o capot de um Delta HF. E desse nunca ninguém duvidou.
Duas figuras que já subiram: os dois de forma trágica e muito prematuramente.
O Portão ensinou-me a beber cerveja... nunca lhe conseguirei agradecer o suficiente.
E na tarde do dia de Natal houve alturas em que, com óbvio e jamais escondido sacrifício, o senhor Hilário nos punha bolo rei na mesa para ensopar. E nós estranhávamos. Mas vencíamos o preconceito e comíamos sem medo.
Construiram-se vidas e amizades e compromissos naquelas cadeiras baixas e muito se discutiu e falou e cresceu. 
E as tostas mistas que o Max trazia. Parecia que voava, o Max...
E quando à quarta à noite o Ricardo arrematava por um preço simbólico os pasteis da vitrina para serem comidos na quinta, numa cave muito bem frequentada da Lagoa de Maria. Às vezes eram congelados... comi alguns, lembro-me perfeitamente, ainda gelados num ritual de desassombrada rebeldia.
O Portão era nosso. Foi a nossa casa durante muitos anos e é sem ponta de vergonha que reconheço que foi um tempo bom que se foi. Um tempo agri-doce como todas as experiências de vida.
Nada voltará a ser como foi e isso não é necessáriamente mau.
Mas que foi um tempo bom, ai isso foi.
Quando hoje olho para aqueles degraus, lembro-me das horas que ali passei e quase que arrisco. Mas esses degraus são hoje a entrada do BES e não me parece apropriado.
Se calhar é preconceito.

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

das coisas que se não sabem nem conhecem mas que nos enchem



Ousemos ousar e pensemos que o Natal é Natal.
E na ponta da árvore dependuremos sonhos.
Na estrela um rumo e no brilho de cada bola o reflexo dos ausentes.
Dos Natais passados, tentemos fazer presentes.
E por cada cor um desejo e por cada fita uma jura e por cada som um brilho.
Uma centelha de esperança em cada crepitar, em cada vela, em cada luz, em cada olhar.
E um esforçozinho para sermos bons - aproveitemos o ensejo.
Buscando de paz em paz o conforto dos dias quentes, lembremos o colo, o abraço apertadinho, o dolente dançar das labaredas contidas à lareira, espalhando vida em seu redor.
E por que não chorar?
E lembrar quem já não é...
E pedir ao Pai Natal,
Porque a vida custa todos,
Pra limpar a chaminé!

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

das comidinhas de Inverno

(Anda cá minha linda que eu não te faço mal...)

Então é assim... (só esta introdução já me valeu um leque muito mais alargado de leitores).
Toma-se uma garrafa de Campari e coloca-se perto da vista.
Desfiam-se umas cascas de tangerina para dentro de um copo avantajado onde irão fazer companhia ao gelo e à primeira dose do mais fantástico dos aperitivos amargos.
Junta-se uma garrafinha, a primeira, de água tónica Schweppes, a única digna desse nome.
Feita a "mise-en-place", passemos ao que interessa. Antes, já me esquecia, liga-se a vitrola - no caso até pode ser o disco de Natal do Michael Bublé.
Torce-se o pescoço (o Campari já ingerido dá coragem) à galinha mais gorda que se andar a pavonear pelo galinheiro.
Fazem-se as coisas que se fazem às galinhas e que começam com "torce-se o pescoço" e acabam com "corta-se ao pedaços".
Na panela, de generosas dimensões, puxam-se em azeite, em uníssono, troços ataballhoados de cebola, pimento vermelho, tomate, alho, cenoura, uma malagueta (ou duas) e bacon.
Apenas ligeiramente.
Quando há, pode juntar-se um talo de aipo que dá aquele gostinho a Knorr que nos lembra da nossa condição de classe média baixa.
Depositam-se os pedacos da galinha devidamente aspergidos com sal, pimenta, cominhos e umas colheradas de paprika. Deixa-se crepitar a coisa, mexendo para uma mais completa sinfonia.
Quando a galinha começar a ficar douradinha, tira-se do calor a panela e borrifa-se a mistura com farinha para engrossar. Retorna ao fogo e mais uma mexidela.
Acto contínuo, despeja-se o vinho tinto sobre o preparado de modo a cobrir tudo. Tapa-se e deixa-se cozer em lume brando. Panela tapada.
O vinho deve ser bom e de preferência encorpado.
Sempre que o bicho começar a ficar com a cabeça de fora, acrescenta-se água, ou vinho se ainda houver. Panela sempre tapada e lume brando.
Na vitrola coloca-se, por exemplo, o José Cid ao vivo no Campo Pequeno porque o outro já acabou a actuação. E prova-se o terceiro Campari para aferir se as cascas de tangerina ainda soltam aroma.
Quando a carne se começar a soltar dos ossos (se a galinha estivesse na eminência de morrer de velhice, isso pode demorar horas) destapa-se a panela para o molho engrossar como resultado da evaporação.
A panela há-de começar a cantar de forma diferente e esse é o momento de desligar e reservar.
Entretanto saltearam-se numa frigideira uns cogumelos inteiros com bacon e cebolinhas, em azeite com uma pitada de paprika.
Espalha-se a galinha numa travessa de bordas altas e decora-se com os cogumelos brilhantes até o brilho transformar uma simples galinha estufada num prato sumptuoso.
Manda a regra que se coma com arroz solto, mas eu prefiro, de longe, com batatas cozidas com pele e uns brócolos cozidos a vapor.
Acompanha-se com aquele vinho que sobrou da última vez que se acrescentou molho. Daí o cuidado em utilizar sempre um vinho bom. Não há que descurar.
Bom apetite.

Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

da cóltura



-Pai, estou um bocado triste.
-Porquê?
-Hoje comprei estes livros na escola e quando me fui vestir para a aula de educação física, resolvi deixá-los nos valores.
-E...
-A senhora lá disse-me que não era preciso porque ninguém rouba livros. Ninguém lhes liga.

da obra

(Muito provavelmente a imagem mais antiga da Mealhada)

A revista Sábado escreveu um artigo sobre as Câmaras Municipais "esquisitas", que também as temos no nosso país.
Entende-se por "esquisita" qualquer instituição pública que, ainda antes dos constrangimentos impostos pela conjuntura, já se dava ao desfrute de fazer contas.
Há de tudo: câmaras que pagam a tempo e horas (??), municípios onde os veículos afectos à presidência têm mais de cinco anos (!!) e em casos extremos são até partilhados por presidente e vereadores, autarquias que já faziam uma gestão contida dos consumos de electricidade ainda antes da chegada dos idiotas da troika...
Em duas páginas de notícia  truncada por uma foto de dimensões generosas e várias chamadas de texto, descobrimos que felizmente os casos retratados estão muito longe ser a imagem do país real. Está pois salvaguardada a hegemonia nacional: a maioria mantem-se do lado dos outros, dos que fazem obra podendo ou não fazê-la, dos que gastam por conta do futuro pois se é para os vindouros que se faz a obra, é normal que sejam os vindouros a pagá-la.
Mais uma vez ficamos mal na fotografia: aparentemente a Câmara Municipal da Mealhada paga aos fornecedores em média a dez dias da factura.
Que desperdício...

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

dels caganers

Os Caganers são uns simpáticos bonecos de presépio espanhois.
Reza a lenda que cumprem desde o sec XVIII a produtiva função de adubar o solo "presepial" de modo a torná-lo rico e próspero.
Nenhum espanhol que se preze arrisca deixar o musgo à sua sorte: todos têm um caganer.
Como o nosso Natal vai ser cada vez menos natalício, propõe o chacomporradas que, à semelhança da árvore da Lapónia e do velhote da Coca-Cola (simbolos de economias pujantes, diz-que), passemos a enriquecer a nossa quadra com uma tradição de um país mais aconchegante: assim um país da nossa liga - um PIG como nós.
Vamos todos comprar um caganer e colocá-lo em posição de destaque na noite de consoada enquanto nos debatemos com uma bela posta de paloco da Islândia. Uma belíssima homenagem a todos quantos nos acham relapsos.
Quando acharmos que o mundo tem maturidade para tanto, podemos criar a nossa própria mascote natalícia. Manda a evolução da coisa que procuremos uma peça de artesanato das Caldas, que já ostenta um gorro "à Pai Natal". Um digno concorrente do caganer, apenas que em posição menos submissa - um altivo herdeiro das tradições ibéricas. Um sinal de respeito para quem nos quer manter pobres, submissos e deprimidos.

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

da deslocalização

(Foto roubada ao Dr. Pacheco Pereira por falta de lembrança para testemunhar o ocorrido - o sítio e o carro são os mesmos)

A partir das bordas de Setembro é vê-los, arrumado que está o carrito dos gelados, a sacolejar a lata.
"Quentes e boas" embora o calor da tarde nem sempre puxe por elas. Marcam presença na Praça oito de maio, praça do Sansão para os amigos, ainda o Verão aquece as lajes do pavimento. Oito de maio, consta, por homenagem à passagem por Coimbra do Duque de Saldanha, aquando das lutas liberais que sacudiram o país. Habitualmente dois ou três vendedores, nunca menos.
Hoje chove mas é verão. O de S. Martinho, diz apenas o calendário, porque tudo o resto o nega. Não está propriamente frio, mas a pinga a que alude o dia, hoje é mesmo de água.
Aperaltei-me de gabardina e rumei à demanda de castanhas. Tarde tristonha, calmaria no trabalho, o equivalente a tempo livre entre mãos. Nunca me apetrecho de guarda-chuva, mas desta vez fiz mal: o tempo está morno, mas a chuva que se aloja entre o colarinho e o pescoço é fria.
Na praça, em pleno dia de S Martinho, apenas um vendedor de castanhas. Atulhado de fregueses, o carrito baforejava gorgolejos de fumo para cima do povo enquanto a velhota reclamava da sorte "Logo hoje, que há negócio para dez, é que fugiram todos". E o povo, em magote à chuva, comentava a ausência de oferta à altura da procura.
De lado, o homem atiçava o lume. "Não dá para mais", explicava-se "só consigo assar cinco dúzias de cada vez".
Esperei.
Muito.
Encharcado e farto, colapsei quando sete pessoas à minha frente, uma moça atirou um "eu quero vinte dúzias".
Compra em grupo...
Será que foi só hoje? Será que a crise atiçou a tradição e a coincidência levou os outros vendedores a ficarem em casa com medo da chuva? A verdade é que quem estava encheu o papo e só não encheu mais porque, por falta de despacho, viu muitos fregueses abandonarem o recinto.
Afortunadamente, a Estação Doce fica-me em caminho e pude aquecer o corpo e a alma com uma meia de leite e uma torradinha de pão de forma onde detectei um pouco comum sinal de mistura; um toque crocante lambido de manteiga - da verdadeira.
Soube-me pela vida...

Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

do amor pela Patria ou simplesmente é tudo a mesma sucata


No parlamento italiano há cerca de duzentos deputados que carregam Berlusconi às costas apenas porque se forem marcadas eleições antecipadas antes de Janeiro podem não ser reeleitos e com isso perdem o direito à pensão vitalícia.
A Itália tem uma dívida externa que corresponde a cento e vinte por cento do produto interno bruto, num total de um vírgula oito triliões de euros.

Sábado, 29 de Outubro de 2011

do Messias


Antes de sermos pobres com tiques de rico, fomos apenas pobres. Tinhamos apenas o que o dinheiro permitia comprar e, tal como os pinguins, juntava-mo-nos, cuidando que do convívio nasceria a felicidade.
E de facto até nascia.
Foi o tempo das festas populares no verão, das tertúlias de café, dos grupos de amigos na praia, do cinema...
Ninguém se fechava em casa. Se calhar porque a falta dos artefactos modernos fazia da "casa" apenas o lar e não o moderno "playground" que hoje orgulhosamente ostentamos. Sem consolas, computadores, DVDs, internet, home cinemas, a casa era uma entidade... chata.
Desde muito cedo que o Cine Teatro Messias se encaixou na minha vida. Tenho como primeira memória as faustosas (pareciam-me na altura) festas de Natal das Caves Messias onde havia "à discrição" laranjadas Bussaco e pães de leite com fiambre e manteiga. E no fim distribuiam-se as prendas e um bolo-rei da Império por funcionário. E no dia de Natal à tarde havia sempre matinée: o Zorro, o Herbie...
Uma vez por ano havia um espectáculo dos miúdos da Casa do Gaiato em que toda a família se refastelava a ver umas rábulas inocentes e música. Uma noite (sem ser o Natal) em que me era permitido estar acordado até tarde: um bónus. As famílias ofereciam bolos e sandes para o lanche dos Gaiatos e eu abalava para casa a olhar para trás, considerando injusto não ter autorização para me deliciar no repasto dos artistas.
Foi o Cine Teatro Messias  que me proporcionou uma noite sem dormir quando, a contragosto, o meu irmão me levou a ver o Tubarão, tinha eu perto de dez anos.  Ou que me deixou dormir quando, vários anos mais tarde, me refastelei numa cadeira de pau que me pareceu um sofá e dei largas ao tédio assistindo ao filme A Missão com Roberto de Niro.
Vi no "Messias" o primeiro softcore (Calígula, de Tinto Brass) e o primeiro hardcore (desse não me lembro o nome, mas fui ver com o Tatá).
Foi o palco do "Messias" que acolheu as récitas do Grupo Recreativo e cultural Sem Nome, ainda nos finais de setenta, a única experiência cultural consistente que alguma vez existiu na Mealhada.
Os bancos das plateias, com assento de pau, contrastavam com os do balcão, almofadados e de preço superior. Do balcão havia quem atirasse coisas para a plateia, umas vezes rebuçados comprados no bar, outras vezes não. Berrava-se e assobiava-se de cada vez que a fita partia e no intervalo havia sempre que comentasse, doutamente, que o filme estava todo cortado, nunca se apurando concretamente com que intuito.
Foi no "Messias" que pisei um palco pela primeira vez, a tocar bateria num playback dos Whitesnake com o Tatá, o Deolindo, o Fernando e o Luis Carlos numa festa do liceu. E no mesmo local o voltei a pisar, vinte e tal anos depois (com a casa já remodelada e profundamente comovido) pela segunda e última vez, vestido de avestruz, numa festa do infantário do meu filho. Felizmente não há registos destes dois eventos.
E o Menino Mota que se sentava sempre na primeira fila, privilégio que lhe assistia por distribuir os cartazes dos filmes. E o Rui Paulo, que invariavelmente via os filmes numa das frisas, mas que no intervalo se juntava ao resto da maralha para discutir as cenas mais fantásticas da primeira parte. Discutia-se a relevância do "artista" (epíteto do actor principal) que raramente era uma mulher.
E no intervalo comprávamos vinte e cinco tostões de rebuçados ou caramelos enquanto os adultos (ou não) bebiam uma tacinha de Bomfinal rosé. Às vezes havia uma gasosa Bussaquina.
O "Messias", nessa época gloriosa, não integrava as rotas das melhores distribuidoras e os filmes apareciam por cá a destempo, mas isso era um pormenor de somenos importância.
O andar do tempo acabou por separar-nos e foi já em rota separada que o edificio acabou por fechar quando já não era segura a sua utilização. Antes, percorreu o calvário de degradação que Tornatore tão bem descreveu no Cinema Paraíso.
Em boa hora a autarquia pôs mão à obra e recuperou o espaço de forma magistral para ser reinaugurado como Teatro Municipal, passaram anteontem dez anos. O "Messias" é hoje uma excelente casa de espectáculos que honra a Mealhada e que tem apresentado uma cartaz multifacetado, dedicado aos vários públicos, mas sempre de altíssima qualidade. Pena é que as salas de cinema estejam em crise e logo quando finalmente estreiam na Mealhada os filmes que estreiam na capital. Ao mesmo tempo.
Hoje há festa e lá estarei, novamente comovido, para ouvir o José Cid, um amigo da casa.
Parabéns a todos nós.      

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

do preconceito


A Elsa deslocou-se ao Cortefiel e comprou uma peça de roupa.
Enquanto decorria o pagamento, foi praticamente coagida a aderir ao cartao da marca.
O simples facto de aderir garantiu-lhe imediatamente um desconto no preço da peça.
Preenchido o formulario, a moça leu a folha e comentou "provavelmente nao vai ser aceite: a sua profissao..."
"Por ser domestica?"
"Sabe que o cartao tem uma componente de credito..."
Noutros tempos teria havido peixeirada, mas o desconto ja estava empochado e o Cortefiel tinha acabado de perder uma cliente, por isso limitou-se a responder "nao se preocupe que o meu marido paga-me as compras".
Cada vez tenho mais orgulho na minha menina.

Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

do regresso ao futuro


A todos quantos vibraram nos ultimos tempos de cada vez que recebiam um mail a perorar sobre o quanto éramos felizes antes de existirem computadores.
A todos quantos verteram uma lágrima furtiva ao relembrarem que antigamente só havia uma televisão em cada casa.
A todos quantos correram a fazer um like num post do Facebook que falava dos carros sem cinto de segurança atrás e de como antigamente não havia cadeirinhas para crianças e de como toda a gente cresceu sem traumas.
A todos quantos rejubilaram por saber que afinal toda a gente brincou com bonecos pintados com tintas toxicas que aparentemente não deixaram marcas.
A todos quantos recordam com saudade os tempos de Heidi em que só tinhamos dois canais na televisão e os dois a preto e branco.
A todos quantos conseguem encontrar um pérfido prazer no facto de esfolarmos um joelho e ainda levarmos uns calduços por aparecermos em casa com as calças rotas. As únicas que tinhamos.
A todos informo que estão a dois passos de verem o seu sonho mais selvagem ser tornado realidade: vamos todos voltar aos gloriosos tempos que nos moldaram.
Está em marcha um processo de empobrecimento por decreto que nos vai atirar  para os gloriosos tempos em que víamos o mundo por um canudo.

Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

da fé


Indulgence é uma das palavras mais simbólicas da lingua inglesa. Não tem paralelo em qualquer outra língua, um pouco como acontece com a "nossa" saudade. Usa-se em quadros de merecido auto-reconhecimento: seja um gelado ao fim da tarde, um bom vinho à lareira, uma guitarrada de blues numa sala cheia de fumo, uma manta felpuda, um jantar na melhor companhia do mundo ou o roncar de um potente V12 mesmo atrás do encosto de cabeça. Algo que merecemos, algo que nos oferecemos.
É isso que sinto hoje: acabou-se-me ontem o Verão, desincorporei o heterónimo recepcionista a tempo inteiro para voltar ao tempo parcial e está um belíssimo dia de começo de Outono (atrasado, muito).
Festejo com umas mini férias e tenciono aboletar-me na poltrona ao som de um Quintero (o tempo não está para charutos caros) a re-entabular conversa com o meu amigo Dexter Morgan que nesta sexta temporada se cruza com quem nunca antes conseguira: a fé.
Prossigamos...

Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

do mimo



As oportunidades podem percorrer vários caminhos, mostrar-se de variadas maneiras ou limitarem-se a ficar quietinhas no seu canto à espera de uma alma mais afoita.
O prazer, o quase-pecado, o desfrute. A possibilidade antes negada de viver algo bom. Algo prazeroso.
Sob a forma de cheques-presente, abrem-se as portas de paraísos sonhados a pessoas que de outra maneira dificilmente as tranporiam.
É um superior prazer e uma honra lidar com quem não tem peneiras, não tem vergonha de fazer perguntas, com quem assume que está fora do seu meio mas que tem direito ao seu pedacinho de céu.
É um mimo - nada mais.
O suficiente para lhes plantar no rosto uma gratificante expressão de merecido prazer.
Pudessem todas as pessoas do mundo ter acesso a um mimo, ainda que esporádicamente.

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

do verbo ESBANJAR


Cavaco Silva apresentou-nos o conceito.
António Guterres democratizou-o.
Durão Barroso preferiu ignorá-lo.
Santana Lopes (quem?)
José Socrates começou por desconfiar da coisa, mas rapidamente se deixou encantar pelas vantagens.
Pedro Passos Coelho aprendeu com Cavaco, beneficiou com Guterres, interessou-se com Sócrates, mas apesar de tanta preparação, tem descoberto diariamente que afinal não sabia nada.

Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

do requintado deleite


Sexta-feira, dia 21 de Outubro.
Casino da Figueira da Foz.
Fumadores.
Às onze da noite.
Só falta escolher o sítio para jantar e o charuto.
Um encontro com a história contemporânea.
Espera-se ansiosamente que um requintado deleite.

Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

da luz e da ampla estrutura do espaço confinado.

Edward Hopper, Railroad Sunset (1929)

Esta luz é uma luz que me descansa o espírito.
Esta luz apresenta-me a quietude dos grandes espaços.
Esta luz preenche-me o fundo dos olhos e faz-me sonhar.
Que pena eu tenho que esta luz esteja confinada à esquadria da tela.
Impassível desde a grande depressão.

Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

da vocação


"O acto de ensinar compõe-se de um quarto de preparação e três quartos de teatro" 
Gail Godwin

Domingo, 9 de Outubro de 2011

do talento


Se fosse vivo, John Lennon faria hoje setenta e um anos.
Pensá-lo vivo hoje é um exercício de imaginação ao alcance de poucos. Lennon pertence ao grupo restrito dos imortais que cresceram quando o passaram a ser.
O seu mundo idealizado jamais se realizou e seria triste vê-lo aburguesado, confortado, entregue ao devaneio de uma velhice refastelada num qualquer castelo da Escocia, eremita da sua própria condição.
Curiosamente, na cidade que o viu morrer, há hoje manifestações pacíficas. Infelizmente desprovidas do sentido que ele tanto cultivou.
Mas os tempos são outros e as guerras são surdas aos gritos.
Do talento, salta a mais sublime das suas criações- Norwegian Wood .

Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011

do génio


O rato mais famoso do mundo ficou orfão em 1966.
O segundo mais famoso ficou anteontem livre do pai que não foi pai biológico, antes adoptivo, mas mais carinhoso e empreendedor.
O primeiro tocou o coração de milhões, enquanto que o segundo revolucionou o modo como interagimos com o mundo.
O "i" é a marca d'água dos gadgets que deram mais notoriedade à Apple e consequentemente a Steve Jobs, mas trata-se na sua maioria de abordagens alternativas a aparelhos já existentes e consolidados.
O caso do rato é diferente: não foi inventado pela Apple mas foi acarinhado. Steve Jobs fez do rato um homenzinho.
Obrigado, pá! E até sempre.

Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

da Fé


Texto recebido por email.

A D. Beatriz, senhora alentejana, 80 anos, solteira, organista numa igreja da Diocese de Beja. ( Igreja do Carmo)
É admirada por todos pela sua simpatia e doçura.
Uma tarde, convidou o novo padre da igreja para ir lanchar a sua casa e ele ficou sentado no sofá, enquanto ela foi preparar um chá. Olhando para cima do órgão, o jovem padre reparou numa jarra de vidro com água
e, lá dentro, boiava um preservativo.
Quando a D. Beatriz voltou com o chá e as torradas, o padre não resistiu e perguntou-lhe o porquê de tal decoração em cima do órgão.
E responde ela apontando para a jarra: "Ah! refere-se a isto? Maravilhoso, não é? Há uns meses atrás, ia eu a passear pelo parque, quando encontrei um pacotinho no chão. As indicações diziam para colocar no órgão, manter húmido e que, assim, ficava prevenida contra todas as doenças.
E sabe uma coisa? Este Inverno ainda não me constipei".

Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

da urbanidade


Esta foto foi tirada hoje às quinze e picos em frente à entrada da Escola EB 2-3 da Mealhada.
A imagem não é fantástica, mas dá para ver que os recipientes têm uns sinais cor de laranja nos rótulos, sinal que coisa boa não deve ser.
E os garotos ali ao lado...

das teorias e da simples realidade

(Este não leva foto)

O Henrique Gonçalves é meu colega de profissão, foi meu contemporâneo na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto (embora em anos desfasados) e é um grande sportinguista.
O Henrique está doente e mantém um blogue fantástico onde narra o seu dia a dia. Uma memorável lição de vida para todos sem excepção.
Leio avidamente o que escreve, mas hoje vou transcrevê-lo porque o assunto é ainda mais sério: muito sério.
Ora carreguem lá no link e aproveitem para ler o resto dos posts.

http://henry67-vivercomela.blogspot.com/2011/10/carta-ao-presidente-do-conselho-de.html?spref=fb

Sábado, 1 de Outubro de 2011

da massagem à alma

É difícil encontrar na nossa vida algo que reconforte tanto. Algo que nos acompanhe e que, salvaguardando excepções devidamente documentadas, algo que reúna tanto consenso e tanta universalidade junto da natureza humana.
A verdadeira definição de luxúria, uma outra definição de pecado.
Alimenta-nos a alma, vicia, garantem alguns, potencia os nossos estado de alma e entrega-nos num estado de quase letargia.
Faz-nos voar e sonhar, molda-se a quase tudo na vida e permite leituras adaptadas a cada um: leituras personalizadas, intímas.
A sua presença quebra barreiras, une-nos num mundo melhor, abre portas ao entendimento e à comunicação.
E exala um prazer quase pecaminoso, independentemente da forma que usa para se colocar à nossa disposição.

É a música. Que mais poderia ser?
E hoje é o seu dia.
Amê-mo-la.

Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

da concorrência desleal e actualmente desnecessária


A questão da construção de uma Pousada de Juventude no Luso é uma bandeira antiga que é levantada pelos seus defensores sempre que para isso lhes é dada oportunidade.
Foi-o de novo na passada sexta-feira, em sede de Assembleia Municipal descentralizada.
O Luso é o único destino turístico do nosso concelho. Já viu melhores dias, mas reconhece-se aos lusenses uma resiliência ímpar, suficientemente forte para lhes permitir terem-se aguentado nestes últimos anos com base em promessas de leite e mel.
Como não são as promessas que sustentam os negócios, é natural que do ponto vista económico as coisas tenham vindo a decair. No caso do alojamento turístico, a situação começa a ser dramática.
Aparentando desconhecer a realidade, os defensores da construção da Pousada de Juventude prosseguem a sua cruzada em prol de um tipo de alojamento que irá fazer concorrência directa ao parque de campismo, desleal ao alojamento turístico existente e sustentado num tipo de turista que objectivamente não é o que procura este tipo de destino.
A solução para o Luso passa pela revitalização e possível reorientação (séria) das termas, pela resolução do problema da poluição provocada pela fábrica Alcides Branco, pelo epílogo da novela Palace Hotel e pela requalificação da vila, já em andamento.
Quando a procura arrancar e o alojamento turístico recomeçar a trabalhar, recuperem a ideia da Pousada, do hotel de cinco estrelas, das não sei quantas centenas de novas camas.
Mas tudo com os pezinhos assentes no chão ou como se diz actualmente, de forma sustentada.