sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

da subida


Para quem achar importante, eis aqui a lista das pessoas importantes (segundo a Wikipedia) que morreram em 2010.

Catalogada por data, profissões, origem e ano de nascimento.
Verdadeiro serviço público.
Não me sinto nada ostracizado por se terem esquecido de mim.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

do jogo de cintura ou Feliz 2011

Quando experimentamos uns sapatos e perguntamos ao vendedor se alargam, gera-se um momento de tensão.
Perante a nossa expressão facial, o vendedor arriscará um "dão-se sempre um bocadinho" ou um "esse sapato não deforma", segundo a sua experiência.
Se acertar na resposta faz negócio, se não acertar levanta-se de um pulo acrescentado um "mas não alargam demais" ou um "não deforma, mas adapta-se ao pé" consoante a necessidade.

Para o ano de 2011, desejo-nos um jogo de cintura igual ao dos vendedores de sapatos.
E paciência, muita paciência.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

da chico-espertice


Na prática não tenho sentido muito a crise: o hotel está a trabalhar melhor que no ano passado e pessoalmente, mercê de aulas e outras peculiaridades, tenho maior desafogo financeiro hoje que no final de 2009.
É verdade.
No entanto, e porque a realidade não se esgota na minha zona de conforto, estes ultimos tempos criaram-me um maior espírito crítico no que diz respeito a desmandos, a desperdícios, a exageros e a roubos.
Comi hoje uma fatia de pudim Abade de Priscos no restaurante D. Tonho em Vila Nova de Gaia.
Fantástico o pudim, como de resto toda a refeição.
Digo sem qualquer reserva - almocei muito bem.
Cobraram-me cinco euros pelo pudim.
Um roubo?
Não, desde que me tivessem informado previamente do preço conforme manda a ética, a educação, a legislação e o respeito pelo cliente.
Como não o fizeram, é um roubo.
Os restaurantes são livres de colocar nas suas cartas os preços que bem entenderem e os clientes são livres de escolher ou não, mas apresentar uma travessa de entradas para o cliente escolher quando já não tem consigo a carta para poder aferir dos respectivos preços ou descrever oralmente o menu de sobremesas sem informar os valores das iguarias, soa-me cada vez mais a vigarice.
É precisamente nos preços que nós não vemos ou nos que nos são sonegados que se esconde o diabo e nós não vivemos tempos que se prestem à apreciação de surpresas.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

dos macarons


Não gostei dos verdes, tão pouco descortinei ao que sabiam.
Há uns vermelhos de framboesa que irão, sem dúvida, lindamente com uma taça de espumante.
Para o chá, guardem-se os de sabor mais delicado.
Há um dos castanhos que tem aroma de café. Muito bom.
Avelã, pareceu-me um deles, mas não confirmo.
Pelo meio apanhei um com um travo acido que não identifiquei, que destoa, mas que não desagrada.
Os lilás são de amora e não de lavanda como, aterrorizado, suspeitei ao olhar para eles. (A Arcádia tem uns chocolates de lavanda que sabem a sabão).
Maravilhosos mesmo são os amarelados de baunilha e caramelo.
Ao todo eram nove sabores.
Escapou-me entretanto um...

Comprei-os na Boulangerie de Paris, na zona da estação de S Bento, no Porto. Merece uma visita pela fantástica vitrine de pastelaria que ostenta.
Uma nota final para os croissants: um must. 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

do fundo do Coração ao pó das estrelas


Da paz que sonhamos,
Ao tudo que,
Ano após ano,
entre todos desejamos...

Da luz que difundimos,
À mão que estendemos.
Do pão que distribuimos,
Ao calor que recebemos. 

Em tudo pomos tudo,
Em muito, quase nada...

Na tal,
Na fácil lágrima...
Na tal simples redenção. 

Porque no fundo,
No fundo,
Só nos sobra
O pó das estrelas.

2010.12.22

domingo, 19 de dezembro de 2010

the Horse's Neck


O Pai Natal é uma fraude, tendo a considerar.
Sabe tudo, sabe tudo, mas não aprende que não gosto de whisky (nunca gostei) e que há mais de dois anos que não bebo vinho de espécie alguma.
Perdoo-lhe apenas a falha em relação aos charutos, para os quais vou abrir uma excepção: os Montecristos nº3 que hoje recebi não vão ficar por fumar. Mas mesmo em relação ao tabaco, já não sou o homem de outrora.
Não, ainda não chegou o Natal, mas tenho alguns indefectíveis que se chegam sempre à frente antes da data, quiçá para se precaverem: pensam que assim eu não me esqueço de retribuir.
Alguns enganam-se.
De todos as garrafas de whisky que recebi na vida, e que por sinal nem foram assim muitas, apenas uma me deixou verdadeiramente agradecido. E essa, tenho feito questão de a beber - aos poucos, que para mim é mesmo frete, mas misturando (hoje foi com ginger ale) lá vai indo.
Foi-me oferecida por uma turma de restaurante/bar da Secundária D Duarte, para pagamento de serviços prestados. O simples serviço de gostar deles, de lhes compreender as idiossincrasias.
Ninguém na escola compartilhava nem compreendia este meu apreço. Compreenderam-no os alunos e deram-lhe a forma de uma garrafa de Cardhu e de um postal assinado por todos, que ainda hoje guardo.

Horse's Neck é o nome da primeira composição que aprendi a fazer na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto nos idos de 1986. O nome advem-lhe de uma casca de limão longa que se pendura no bordo do copo e cai pelo interior do mesmo. O original resumia-se a ginger ale, mas o tempo fortaleceu-o com brandy. 
Actualmente é mais comum com whisky rye ou bourbon, mas hoje fi-lo com malt whisky e nem a casca do limão ficou em condições. 
E mais uma vez me lembrei dos meus alunos da turma de r/b do D Duarte.


da desertificação


A morte lenta e dolorosa da Baixa de Coimbra tem vários rostos. É injusto atribuir toda a culpa a Carlos Encarnação, mas será também injusto não lhe atribuir nenhuma.
O divórcio com a Baixa vem do tempo de Manuel Machado e obviamente que um governo que só não tira a Coimbra o que não pode também não ajuda.
Compreenderia o argumento que Carlos Encarnação apresentou para se despedir do cargo se fosse funcionário do Governo, mas de facto um autarca não é funcionário de nenhum governo. Um autarca é, quanto muito, funcionário do povo que o elegeu, funcionário do seu município, servidor da sua terra.
Coimbra vai herdar uma solução postiça, um presidente em que ninguém votou e uma coligação que pode não se rever nos novos rostos.
Tudo coisas de que Coimbra está longe de precisar.
Tudo coisas que Coimbra não merecia.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

do Ronald


Hoje conheci pessoalmente o Ronald McDonald.
Verdade: até me ofereceu uma esferográfica.
Infelizmente tive pudor de pedir para registar o momento em foto.
Nunca me perdoarei.
...
Actualmente é difícil explicar a quem não vivieu os tempos do assalto consumista, a loucura que foi comer o primeiro chocolate Nestlé depois de anos a vê-los apenas na publicidade dos livros do Walt Disney editados no Brasil pela editora Abril: o Chokito, o Galak...
Dizer que guardei religiosamente o papel do primeiro Mars que comi pode dar vontade de rir, mas não a quem apenas os via na Pop Rocky ou na Bravo (edição alemã) - comi o primeiro Mars uns bons cinco anos antes de os haver em Portugal.
Quem é que se lembra de que só os filhos dos emigrantes ou quem tinha primos na França ou na Alemanha é que tinha sapatilhas Adidas.
E a Coca-Cola? E a Fanta? Bebi durante anos em Ayamonte no Verão porque por cá não havia. Lembro-me até que a versão em lata da Coca-Cola, da Fanta, da Sprite e da Finley (água tónica) foram lançadas a nível nacional na CIC, ainda na Praça Heróis do Ultramar, num dos primeiros anos da década de oitenta.
E quando o Rui Paulo foi passar as férias de Verão ao Canadá com o pai? Trouxe histórias, um vocabulário enriquecido ("fuck" e "shit" e a sua junção "fuckshit" que ele repetia à exaustão) e um tesouro de valor incalculável: material usado de um McDonalds. Um prazer quase erótico, poder tocar uma embalagem de batatas fritas ainda suja de óleo, vermelha, ostentando galhardamente os "Golden Archs" que faziam as delícias da nossa mais ousada fantasia. Igualzinha às dos filmes.
...
É por estas e por outras que facilmente se percebe a onda de saudosismo em relação aos anos oitenta por parte de quem tem hoje à volta de quarenta. Foi uma década de roupa pirosa, de carros que pareciam supositórios, de música... bem, a música safa-se. A música e o cinema. Muito por causa do Indiana Jones, do Back to the Future, do Alien e dos Ghostbusters. E da Samantha Fox...
Foi o ponto de viragem.
A geração que viveu os anos oitenta foi a primeira a interiorizar o mundo num Portugal que apenas meia dúzia de anos antes se dizia "orgulhosamente só".
Estou mesmo arrependido de não ter tirado uma foto com o Ronald McDonald.

domingo, 12 de dezembro de 2010

da imaginação


Para dar a conhecer ao mundo a sua internet de banda larga de 100 mb, a Virgin colocou nas ruas de Londres vários bólides travestidos de taxis.
Segundo consta, estiveram mesmo a trabalhar enquanto durou a campanha.
Não há dúvida que por muito que as coisas possam parecer cinzentas, haverá sempre lugar para a imaginação.

das mascotes



Já não era sem tempo.
A mascote oficial deste Natal é o coelho.
Estudos levados a cabo por reputados institutos, uns do velho continente e outros da América confirmam a sensatez da escolha: o coelho não transmite doenças, é pacato, sociável, limpo, silencioso e... comestível.
Esta nova tendência de adoptar mascotes que se podem comer num qualquer momento de aperto financeiro tem o seu quê de sinistro, mas não deixa de ser um sinal dos tempos.
Pessoalmente não vejo nada de estranho na escolha: afinal o Homem é realmente o único ser da criação que habitualmente convive com a sua alimentação. Antes apenas disponível no campo, agora tmabém em ambientes urbanos.
Pela parte que me toca, pondero a adopção. Há muitos anos que não como coelho e não tenciono voltar a fazê-lo.
Excepto se tiver muuuiiita fome.

da grande ilusão

video
(Video enviado por mail pelo meu amigo António Jorge Costa)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

da ironia


Não tiro qualquer espécie de prazer zombeteiro da notícia.
Não pretendo tão pouco ser sarcástico. Desejo-lhe do fundo do coração uma rápida e inequívoca melhora, tanto quanto desejaria a mim próprio.
Mas a ser verdade que foi diagnosticado um cancro a este senhor, não deixará de ser uma enormíssima ironia da vida.
O próprio já o terá reconhecido. A ironia, subentende-se.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

dos princípios


Passaram na segunda-feira trinta e três ou trinta e quatro anos sobre um dia em que fui acordado muito cedo pelo meu pai com um dilema. Tinha dez minutos para fazer uma escolha que, embora na altura me parecesse inócua, teve um peso importantíssimo na consolidação da minha personalidade: escolher entre a Enciclopédia Infantil da Verbo (na altura ainda só no volume três, mas com a promessa de ser completa) e os vinte e um exemplares da colecção dos famosos Cinco de Enid Blyton.
Avesso ao risco e ao incerto como na altura já era, preferi de imediato a colecção completa de ficção ao lento crescimento do conhecimento científico.
Nunca me arrependi.
Li-os todos de seguida, alguns mais que uma vez. Alguns mais que duas...
Dias depois o meu irmão escolheu a Enciclopédia Juvenil. Obviamente. É um homem de ciência enquanto eu me quedei por este chove não molha um tudo nada romântico, um tudo nada aparvalhado.
Fiz todo o percurso Enid Blyton como mandam as regras: o idiota do Noddy (uma mancha na carreira da escritora), o clube dos Sete (injustamente relegado para plano secundário), os Cinco, o Mistério e mais uma enorme quantidade de obras avulsas. Ficaram-me, para além dos óbvios, o Arreda, a Catatua Didi e o Gordo que, ao contrário do mundo real, era um herói.
Basta olhar para as lombadas dos exemplares dos Cinco para facilmente confirmar qual foi o meu preferido: "Os Cinco voltam à ilha", volume 3 da colecção, está parcialmente destruído.
No início dos anos oitenta, a RTP emitiu ao final da tarde a série numa produção inglesa de grande qualidade que me deixou pouco menos que extático. Mesmo com um cão que não correspondia ao meu imaginário do Tim, um David que afinal se chamava Dick e uma Zé que por ali respondia como George.
As obras de Enid Blyton faziam-nos sonhar e apesar de na altura não darmos conta, fortaleciam na nossa personalidade princípios tão importantes como a lealdade, a coragem, a determinação e a generosidade.
Muitos anos mais tarde, encontrei-me num fim de noite muito bem regado no bar do hotel Praia Mar em Carcavelos, a discutir o tema Enid Blyton com um casal de simpatiquíssimos professores ingleses que me garantiram que nesse momento (1991, 92), havia uma corrente de pensamento  na cultura inglesa, uma corrente importante que pretendia rotular a escritora de fascista. Com algum sucesso, afiançaram. Justificava-se o acto com os tais princípios defendidos, com o aspecto corporativista e elitista  dos meninos se juntarem em grupos.
Um arrazoado de iniquidades. Uma monstruosidade contra a qual lavrei o meu mais veemente protesto,  amplificado por muitas canecas de cerveja San Miguel.
O tempo encarregou-se de repor Enid Blyton  e a sua obra.
A escritora morreu há quarenta e dois anos.  No dia 28 de Novembro.

do espírito

(O azevinho da minha mãe está enorme e cheiínho de espírito natalício)

Hoje é dia de fazer a árvore de Natal.
Como estou constipado, a Elsa resolveu adiar para não me incomodar.
Pelo menos foi o que ela disse.
Não me passa pela cabeça que ela esteja a falar a sério quando me chama rezingão ou quando diz que o filho está a ficar igualzinho a mim.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

da coerência


A fazer fé no editorial da revista Sábado desta semana, Jorge Sampaio terá passado os últimos anos em atroz agonia.

Aparentemente, a sua frase "há mais vida para além do défice", afinal não é sua.
Ainda segundo a revista, este jargão, utilizado à exaustão sempre que tal foi útil para incomodar primeiro o governo PSD e depois para apoucar Manuela Ferreira Leite de cada vez que abria a boca para dizer evidências, este grito de alerta que todos juravam ser da autoria de Jorge Sampaio, foi vilmente manipulado com, sabe-se lá, que segundas intenções.
Incapaz de conter a raiva, o autor veio agora repor a verdade: onde se lê défice, deve ler-se orçamento.
Agora, precisamente agora que a tal frase vilmente truncada perdeu o seu préstimo. Agora que quem reconhece que há défice para além da vida, são precisamente os amigos de Jorge Sampaio e não os malvados dos gajos da direita.
Já quando fez cair o governo de Santana Lopes (mau, mas suportado por uma maioria legítima) tinha demonstrado que veste efectivamente a camisola. Agora bisa.
Um homem coerente.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

da reorganização da coisa


Se na Grécia Clássica já existissem microfones, a democracia não teria sido inventada.
Aquele que foi considerado por Winston Churchill o "menos mau" dos métodos de governo, começou por ser um simples meio de comunicação: dizia-se algo a uns poucos, representantes de uns muitos e a mensagem chegava a todos.
Em 25 de Novembro de 1975, foi reposta em Portugal uma certa normalidade institucional, pilar fundamental do funcionamento de uma democracia.
Se hoje devemos muito a quem fez o 25 de Abril, não deveremos menos a quem saiu à rua um ano e meio depois.
Felizmente vivemos num estado democrático, pluralista e moderno que permite igual tom de voz a quem gosta e a quem contesta.
Eu defendo que existem razões equivalentes para lermos nos manuais de História as datas de 25 de Abril de 1974 e de 25 de Novembro de 1975.
Os apaniguados de uma certa esquerda que são iguais aos apaniguados de uma certa direita, defendem o contrário.
O sistema "menos mau" disse Churchill que consta da História como tendo sido um homem inteligente.

sábado, 20 de novembro de 2010

da Excelentíssima razão



As duas fotos apresentadas acima fazem parte de duas cidades europeias distintas: uma foi tirada no Cais dos Botirões em Aveiro e a outra em Burano, uma ilha encostada a Veneza.
Por alguma razão alguém alguma vez disse que Aveiro é a Veneza portuguesa e estas fotos apenas confirmam essa parecença.
Hoje, e porque todos os dias devemos aprender uma coisa nova, aprendi a razão pela qual os habitantes deste bairro de pescadores de Burano pintam as casas com tons berrantes e, mais importante, pintam-nas todas de cores diferentes.
Os habitantes deste bairro têm a fama e, espero, o proveito de apanhar carraspanas de contornos bíblicos.
As cores berrantes e diferenciadas têm o superior objectivo de os encaminhar sãos e salvos até casa. Cada um tem apenas que decorar a cor do seu lar doce lar e afastar-se da borda do passeio pois as estradas em Veneza são mais mortíferas que no resto do mundo.
No que respeita a Aveiro, pressinto que as pintam deste modo porque sim...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

da Formosura



Não tenho por que negar. A ideia foi efectivamente minha e na altura até me pareceu uma excelente ideia.
Só pedi ajuda para a marcação da coisa porque a sorte me tem permitido não ter necessidade de saber mexer-me dentro dos Hospitais da Universidade de Coimbra.
Munido da competente documentação, rumei à consulta de controlo da obesidade.
Piso seis, endocrinologia, controlo da diabetes.
Aparentemente, por um provável erro de casting, ou talvez não, a primeira abordagem que me foi feita foi precisamente essa: "O senhor é aquilo que nós consideramos um pré-diabético e como tal vai imediatamente falar com uma nutricionista. Entretanto vou pedir-lhe que faça este exame para despistarmos qualquer problema de tiróide. Quando cá voltar para a consulta de controlo de obesidade daqui a quinze dias, espero que mais magro, não se esqueça de trazer o resultado do exame".
Isto foi há três semanas.
Na terça-feira apresentei-me, aí sim, para a consulta de controlo de obesidade. O resultado do exame da tiroide em envelope fechado e pouquíssima motivação.
Mandaram-me esperar na "sala".
A "sala" era um amontoado de gordos e gordas. Um ambiente pesado, no sentido figurado e também no sentido literal. Egos cabisbaixos de quem se prepara para se tentar despedir dos quilos, das banhocas, dos pneus, amigos dedicados de tantos anos, partes de nós que cresceram connosco...
Ninguém diria que ali se encontravam pessoas em busca de uma vida mais saudável. Se era a cura que por ali se buscava, não parecia que a cura fosse a cura para o nosso mal.
Nada disto batia certo com as imagens dos programas do Dr. Oz onde americanos com trezentos quilos emagrecem ao som das músicas da Olivia Newton-John.
Por ali havia tristeza.
Do sítio onde me encontrava, podia ver o interior da recepção. Por cima do ecran do computador, alguém colocou uma imagem do Brad Pitt - provavelmente para a funcionária poder lavar os olhos do drama que se desenrola à sua volta.
Senti-me patético ao imaginar a rotina da funcionária: dois gordos deprimidos, uma olhadela ao Brad Pitt, mais dois gordos contrariados, mais um Brad Pitt.
Apoderou-se de mim tal angústia que não aguentei: cobardemente, abri o envelope do exame à tiroide, vi que não tinha nenhum problema e, demonstrando uma enorme falta de respeito por quem me tinha arranjado a consulta, fugi...
Não tenho desculpas: estou de novo por minha conta.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

da Macroeconomia das perguntas de algibeira


Aparentemente, Timor Leste voluntariou-se para comprar dívida pública portuguesa.
A história recente de Timor Leste leva-nos a presumir que este jovem país deve dinheiro a Deus e a todo mundo.
A ser verdade, será que no meio das dívidas não haverá nenhuma a Portugal?
É que se houvesse, sempre se poderia fazer um encontro de contas. Pelos menos os juros já não deveriam ser tão altos.

da ecologia


Ser ecológico é cool.
Já comecei a trocar as lâmpadas, mas a mais de nove euros cada uma, será um processo relativamente lento.
Hoje comprei uma garrafa SIGG que é uma coisa que qualquer ecológico que se preze deve ter.
Ser ecológico é realmente cool, mas fica carote!

domingo, 14 de novembro de 2010

do Amor



Preparei uma infusão de cidreira com mel, umas bolachinhas e recostei-me.
Uma hora e quarenta e três minutos muito bem passados.
"New York I love you" não é um filme excepcional, mas é um filme ternurento. Fala de amor, de amores para ser mais preciso, de relações, de contactos.
Um filme que fala da vida.
São onze estórias que se tocam, algumas chegam a cruzar-se, a entrecortar-se. Há personagens que saltam de uma para outra...
Cada estória foi escrita e realizada por uma pessoa diferente e todas elas são servidas por actores de grande qualidade. Alguns, famosos!
Pelo que me apercebi, o filme não teve grande divulgação por cá. Pareceu-me à primeira vista mais uma abordagem da produção mainstream ao cinema "Indie", muito na onda do "Away we go", filme simples mas fabuloso de Sam Mendes.
Eu gostei bastante de "New York I love you".
E recomendo.
Com chá e bolachinhas e a mantinha sobre os joelhos.

sábado, 13 de novembro de 2010

We have all the time in the world



Um grande tema de um grande filme.
Provavelmente o Bond com o melhor argumento.
Provavelmente o Bond mais injustiçado.

domingo, 7 de novembro de 2010

do MK2

"Alguém se lembra do que usavam os DJ's antes do 1200? Ninguém!"

A mais importante peça de difusão musical dos últimos trinta e tal anos vai ser descontinuada.
Em Portugal ficou conhecido por MK2, mas o seu nome completo é Technics SL-1200 MK2 e nasceu em 1978 como salto evolutivo do original SL-1200 de 1972.
Trata-se de um prato gira-discos profissional de alta performance que equipou as bancadas de trabalho da esmagadora maioria dos Dj's e radialistas praticamente desde o dia em que nasceu.
A Panasonic, detentora da marca Technics, anunciou agora que a MK2 (que entretanto já é MK6) vai ser descontinuada.
Aparentemente a robustez do aparelho é tal que, aliada à diminuição da procura, permite que o mercado de pratos usados sustente essa mesma procura indefinidamente.
A qualidade tem destas coisas. Ouvi em tempos a mesma justificação para as máquinas de escalar bacalhau para secar: as que existem são tão fiáveis que sobreviverão à extinção do próprio bacalhau.
Eis como um dos pontos mais positivos de um aparelho pode ditar o seu fim.
O mundo anda estranho.

sábado, 6 de novembro de 2010

do Senso Comum



(Recebi este texto por mail, enviado pelo meu amigo Jorge Costa e publico-o no original por uma questão de respeito. Escusado será dizer que me revejo na totalidade dos pontos de vista expressos.)


"An Obituary printed in the London Times - Interesting and sadly rather true.

Today we mourn the passing of a beloved old friend, Common Sense, who has been with us for many years. No one knows for sure how old he was, since his birth records were long ago lost in bureaucratic red tape. He will be remembered as having cultivated such valuable lessons as:

- Knowing when to come in out of the rain;
- Why the early bird gets the worm;
- Life isn't always fair;
- and maybe it was my fault.

Common Sense lived by simple, sound financial policies (don't spend more than you can earn) and reliable strategies (adults, not children, are in charge).

His health began to deteriorate rapidly when well-intentioned but overbearing regulations were set in place. Reports of a 6-year-old boy charged with sexual harassment for kissing a classmate; teens suspended from school for using mouthwash after lunch; and a teacher fired for reprimanding an unruly student, only worsened his condition.

Common Sense lost ground when parents attacked teachers for doing the job that they themselves had failed to do in disciplining their unruly children.

It declined even further when schools were required to get parental consent to administer sun lotion or an aspirin to a student; but could not inform parents when a student became pregnant and wanted to have an abortion..

Common Sense lost the will to live as the churches became businesses; and criminals received better treatment than their victims.

Common Sense took a beating when you couldn't defend yourself from a burglar in your own home and the burglar could sue you for assault.

Common Sense finally gave up the will to live, after a woman failed to realize that a steaming cup of coffee was hot. She spilled a little in her lap, and was promptly awarded a huge settlement.

Common Sense was preceded in death, by his parents, Truth and Trust, by his wife, Discretion, by his daughter, Responsibility, and by his son, Reason.

He is survived by his 4 stepbrothers;

I Know My Rights
I Want It Now
Someone Else Is To Blame
I'm A Victim

Not many attended his funeral because so few realized he was gone. If you still remember him, pass this on. If not, join the majority and do nothing."

das mãos do Wim Mertens


Foi há muitos anos, mas lembro-me como se tivesse sido ontem.
Para definir dramatismo, um livro mostrava uma fotografia das mãos de José Vianna da Motta sobre o teclado de um piano.
Era uma imagem brutal. Uma imagem que se me pespegou à alma e que ainda hoje mantenho nítida. E era realmente uma imagem que transmitia dramatismo.
Eram ossudas, secas, fortes, vibrantes...
Hoje vi as mãos de Wim Mertens.
Vi-as a trabalhar e vi-as a descansar.
Vi-as de modo tão próximo que no sítio onde me encontrava conseguia ver que ninguém se deu ao trabalho de limpar do Steinway & Sons as impressões digitais de quem empurrou o piano para o meio do palco.
E as mãos de Wim Mertens, embora virtuosas, não são dramáticas.
São flexíveis, dançarinas, mimosas...
Pareceram-me, e eu vi-as quase de perto, pouco assertivas.
A correr desprendidas e despreocupadas por cima das teclas como se lá tivessem nascido.
Serão assim todas as mãos minimalistas?
Ou serão só as dele?
Pareceram-me, de tão ternas, quase femininas.
E havia também uma Tatiana que tocava violino... e muito bem!
Quer dizer, acho que era Tatiana porque ninguém compreende muito bem o que o Wim Mertens diz (consta que fala na mesma língua com que canta).
Logo, não tenho a certeza do nome da moça.
Certeza tenho de uma coisa completamente diferente: o forte da Pousadinha não é o bolo-rei!
E o concerto?
O concerto...  era do Wim Mertens, porra!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

da tristeza



A nossa vida é uma coisa complexa que por vezes parece ter vida própria. Mesmo sem nenhum esforço da nossa parte, encarrega-se de nos proporcionar momentos tristes e alegres.
Depois nós encarregamo-nos de arranjar os outros que ficam pelo meio: tristes, alegres e assim assim.
Temos o hábito arrogante de achar que se deve dar mais valor aos momentos alegres que aos tristes e eu sinceramente acho isso muito feio. Acho que cada um deve dar-se ao trabalho de se adaptar como queira à vida que lhe calhou em sorte.
Tristeza e alegria não deveriam ter peso na conta-corrente da felicidade. Há pessoas tristes que são felizes. Dá vontade de acrescentar "felizes à sua maneira" mas isso é também uma atitude arrogante: todas as pessoas são felizes ou infelizes à sua maneira porque não há formulas para se ser feliz ou infeliz.
Para quem, como eu, não perde tempo a tentar adivinhar se existe ou não vida depois da morte, hoje é um dia triste.
Não é um dia infeliz, é um dia assumidamente triste. 
Independentemente de todos os dias podermos ter momentos em que nos lembramos dos que tiveram importância na nossa vida e que já nos deixaram, é simpático que alguém tenha instituído um dia inteirinho para isso.
Hoje corri a lista completa e realmente fiquei triste. Fiquei triste por mim e por eles que já não podem usufruir da maravilha que é estar vivo. Aliás, fiquei triste apenas por eles - devo-lhes isso.  
Tudo o resto se esbate perante a grandeza desta brutal verdade e só nos resta ficarmos tristes.
Despudoradamente tristes.
Libertariamente tristes.
E felizes por ainda nos ser concedida a capacidade de podermos ficar tristes.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

da prateleira dos Eleitos


Há mais de vinte anos que tenho uma rotina que, quase garanto, nunca quebrei: a leitura do Conto de Natal do Dickens quando se aproxima a época.
Faltam dois meses para o Natal e esta conversa só não vem a despropósito porque serve para justificar o que se segue.
Por falta de oportunidade, por preguiça ou por simples desleixo, ainda não se me tinha proporcionado a vontade de ver o filme A Christmas Carol  da Disney de 2009.
Foi hoje.
E agora a razão da conversa introdutória.
Porque sou apaixonado pela obra, tenho, para além de várias edições do livro algumas versões do filme. As que não tenho, pelo menos já vi e penso que as terei visto praticamente todas.
Desde as versões antigas (inglesas) a preto e branco, aos musicais, às animações do Mickey e do Mr Magoo, aos Marretas + Michael Caine (fabuloso), às versões "sérias" com Patrick Stewart ou George C. Scott, ou até ao alucinante Scrooged, tudo já vi e aplaudi.
Hoje foi-me apresentado um belíssimo espectáculo de cinema pela mão de Robert Zemeckis (Back to the Future e Polar Express) e do palerma do Jim Carrey que só consigo aturar neste tipo de trabalhos.
Pareceu-me a versão mais fiel ao escrito original, a mais atenta aos pormenores da escrita de Dickens, a que menos concessões fez ao público.
Mais um filme a juntar aos eleitos para (re)ver na época própria, à lareira, com a mantinha nos joelhos e o chocolate fumegante aconchegado entre as mãos.

domingo, 31 de outubro de 2010

dos conceitos


Todos nascemos conservadores. Quem já teve filhos ou já lidou com bebés, sabe que a maneira mais fácil de ter uma criança sossegada é não lhe mexer com as rotinas. Os pediatras aconselham os pais a criar hábitos nos filhos desde que nascem: hábitos certos e rotineiros. Dizem os livros que estes estruturam a personalidade.
Com o crescimento, todos temos muito tempo para deixar de ser conservadores.
Ou não.
Independentemente das liberdades individuais e da possibilidade de cada um poder ser o que quiser, a verdade é que existem povos que facilmente poderão ser rotulados. Os nórdicos são progressistas e libertários, os do sul são maioritáriamente desprendidos e desorganizados, os orientais metódicos e extremamente pacientes, os latinos ardentes e dados ao laxismo...
O povo mais conservador do mundo é precisamente o povo que menos razão teria para o ser. É o povo que todos os dias inventa coisas novas suficientemente arrebatadoras para fazerem esquecer o ontem.
E não existe no mundo um povo que tantas tradições (próprias - poucas - e apropriadas de outrém) que tantas tradições tenha transformado em festa. Festa e negócio, compreenda-se. E cada vez mais à escala mundial. É fantástico.
Se vasculharmos o baú da memória, facilmente descobriremos que os americanos apenas exportaram um produto em toda a sua história: a Coca Cola.
O que desde cedo exportaram e continuam a exportar com um sucesso arrasador não são produtos, são conceitos. E nisso são imbatíveis.
Quando a América necessitou de motivação, criou o rei dos conceitos: o sonho.
Os conceitos espalham-se de forma natural - basta serem apelativos. E a América sabe como ser apelativa.
Se não fosse o esforço dos americanos, dificilmente festejaríamos ainda o Natal, passaríamos pelo Dia dos Namorados sem o ver, desconheceríamos o Halloween...
Hollywood assenta num produto inventado pelos franceses, os hamburgueres foram inventados na Alemanha, as próprias pizzas sairam da Itália e entraram na Europa através da América, mas isso não tem qualquer importância perante quem lhes deu roupas brilhantes e glamour.
Ao contrário das tradições que, de velhas e imutáveis nos obrigam a adaptar, os conceitos (e muitos nascem das tradições) formaram-se para vir ao nosso encontro.
Neste particular, e reafirmo-o para não entrar em polémicas, neste particular, se não fosse a América, o nosso dia a dia seria ainda mais enfadonho.
Que tal lembrar-mo-nos disso hoje quando, em nome de uma tradição irlandesa a que a América acrescentou mundo, convivermos com os nossos semelhantes entre bruxas, caveiras e abóboras sorridentes.
   

terça-feira, 26 de outubro de 2010

momento Sousa Veloso


Quando, há pouco mais de trinta anos, o meu pai acabou de comprar a totalidade do quintal, fechou-se finalmente o círculo.
O meu pai toda a vida cultivou uma saudável distância em relação aos trabalhos do campo. Orgulho-me de ter herdado essa característica, essa inutilidade que rego diariamente com carinho e aconchegado denodo. Pode dizer-se sem mentir que, tal como a paternal progenitura, eu e a agricultura somos paralelos.
Cá por casa são as mulheres que dominam a lavoura: a minha mãe desde e até sempre e a Elsa quando a deixam - básicamente quando a minha mãe está doente.
Foi precisamente no encerramento do tal do círculo que eu pela última vez vi o meu pai pôr (literalmente) as mãos na terra. Tinha um brinquedo novo e como qualquer homem que se preze, apaparicou-o durante uns tempos. Plantou um diospireiro para o meu irmão, uma romãzeira para mim, pereiras para minha mãe fazer compota e uma colecção completa de pessegueiros que o deliciavam desde o S. João até aos alvores do Outono. Pêssegos brancos, amarelos, vermelhos, moles, rijos, carecas, grandes, pequenos. A sua paixão.
Tal como o meu pai, todos os pessegueiros deixaram já o nosso convívio.
Quanto às outras frutícolas, ganharam novos vizinhos e actualmente produzem-se no quintal  laranjas, maçãs, peras, ameixas, tangerinas, alperces quando calha, duas qualidades de diospiros e romãs podres.
Nunca, em mais de vinte cinco anos, vi uma só romã que se possa considerar digna de ostentar esse nome. Todos os anos a árvore se enche de brios, flores e romãs. Todos os anos a fruta abre antes do tempo, apodrece e cai.
Das pouquíssimas vezes que arrisquei provar uma romã, fruto que adoro, de todas essas vezes me arrependi logo de seguida. Carrego comigo esse desgosto.
No Inverno passado, a minha mãe, gestora do quintal, afiançou-me que iria mandar abater a romãzeira logo que a oportunidade se proporcionasse. Resignei e preparei-me para o inevitável.
Quis o destino que este Verão me tenha encontrado cara a cara e a sós com a condenada. Aproximei-me do tronco robusto de quase trinta anos e resolvi explicar-lhe a situação: "Estás hoje perante o teu destino. Tens um vestido de folhas e as romãs que carregas parecem lantejoulas. Infelizmente não sobreviverás  a este Outono e isso não me parece uma boa notícia. Mas tu saberás o que fazer. Só um milagre te conseguirá manter afastada das garras do serrote". Nunca mais me lembrei desta conversa.
Ontem, a minha mãe trouxe-me duas romãs enormes, saborosas, saudáveis e madurinhas.
Do quintal.
A sério...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

da (como hei-de dizer isto sem ser mal-educado) impreparação.


O assunto "call-centers" daria conversa para horas. Arrisco até que haverá algures um ou mais blogues ou foruns ou grupos de facebook que se dediquem em doentia exclusividade ao tema.
Eu não.
Viveria facilmente, comodamente, placidamente até, se tal "carrapto" da nossa modernidade, simplesmente não existisse.
Anteontem recebi um mail de um amigo que contava uma piada acerca da coisa:
Um infeliz liga para uma linha de apoio à depressão. O call-center, coisa já comum em alguns serviços, está deslocalizado. Este funciona no Paquistão. Quando o deprimido diz que tenciona suicidar-se, do outro lado perguntam-lhe: "Tem carta de pesados?"
Hoje fiquei sem Zon: sem TV, telefone e internet. Liguei para a linha de apoio e descobri que não existe possibilidade de simplesmente se ficar sem cabo. Segundo a gravação, teria que marcar o um se não tivesse televisão, o dois se não tivesse telefone e o três se não tivess internet.
Mais nada.
Aparentemente terei sido eu o primeiro freguês a ficar sem tudo ao mesmo tempo.
Após vários atalhos, consegui chegar à fala com a menina do "call-center".

Pergunta de algibeira:

Se estes prestadores de serviços nos perseguem exaustivamente com pedidos para aderirmos à factura online e ao pagamento por débito directo, se nos massacram o juízo com mais de metade de cada mail a dizer quantas arvores salvamos pelo simples facto de não imprimirmos os nossos emails, por que carga de água é que começam sempre o atendimento do mesmo modo: número de cliente / onde é que isso está / na sua factura / menina, eu tenho facturação online / e... / e como estou sem internet, não tenho como ir ver o número de cliente à factura / e não imprimiu nenhuma / o que é que acha / o seu numero de contribuinte, por favor.

Pelo amor da santa...

sábado, 23 de outubro de 2010

da elementar justiça social


Existe alguma razão válida para, de cada vez que há actualizações salariais, quem ganha mais receba um aumento efectivo maior do que quem ganha menos?
Será que o pão de quem ganha três mil euros é mais caro que o pão de quem ganha quatrocentos e setenta e cinco? E a carne? E o Big Mac? E a água? E a luz?
Previsivelmente, a resposta é um redondo não.
E realmente não existe tal razão.
O mercado, as habilitações, as competências, os amigos, o nome de família, o trabalho desenvolvido, a cor dos olhos, tudo pode servir para que à partida existam diferenças salariais, mas nada pode explicar que com o avançar dos anos, essas diferenças vão gradualmente crescendo. E quanto maiores são, mais crescem.
É uma perversão da nossa economia que, em conjunto com mais meia dúzia de outros factores, alarga o fosso entre ricos e pobres.
Esta é, no entanto, uma perversão que poderia simplesmente desaparecer.
Mesmo num mercado (que eu defendo) em que cada um deveria receber com base na qualidade do seu trabalho, diferenciando-se quem, tendo a mesma função que outros, pusesse nela mais motivação, mais empenho, mais competência, mesmo nesse tipo de de mercado, tem que haver uma base comum.
Essa base, que hoje é meramente percentual, deveria simplesmente passar a efectiva: aumentos em valor real.
Deveria ser estabelecido um valor de aumento com base na aplicação da taxa de inflação (de preferência com uns pózitos mais para apimentar a economia) ao valor do salário médio dos portugueses.
Esse valor, em € e não em %, seria a matriz de todos os aumentos.
Toda a gente seria aumentada no mesmo valor.
Manter-se-ia a distância entre os salários e dar-se-ia um passo de gigante no sentido de uma maior justiça social. 

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

da Vigarice


Conheço bem as famosas "cartas da Nigéria" onde nos era contada a tristíssima história da viúva do ministro do petróleo lá do sítio que alegadamente teria em seu poder milhões de dólares que pretendia transferir para a Europa. Era solicitada a nossa ajuda em troca de uma soma avultada à laia de prémio.
Cheguei a coleccionar algumas que entretanto deitei fora.
Com o desenvolvimento da Internet, as cartas passaram a mails. Uns de convite para a malandrice com negócios interessantes, adiantamentos de dinheiro, pagamentos por conta, compras de bens, outros mais sofisticados que carregam no seu interior bicharada suficientemente funesta para nos delapidar o computador, quiçá o património.
Tinha guardada a foto que apresento acima há dois ou três dias. Aparentemente um email oficial, na prática uma vigarice: bastava-me carregar lá onde eles pedem, para ver em segundos o computador ser invadido por spyware, malware, trojans, etc. etc. etc.
Eis quando senão a coisa dá o passo seguinte. Recebi ao início da tarde um telefonema de um senhor que falava um inglês quase ininteligível a perguntar-me pela resposta a um email que teria enviado ontem com uma determinada reserva. Adiantou ainda que era um pedido de quartos de uma escola católica lá da terra dele e que precisava de uma resposta urgente.
Lembrei-me do mail. Lembrei-me exactamente de o ter apagado pois tinha um ar muito mais que suspeito, mas mesmo assim resolvi ver até onde ia a marosca. Pedi-lhe para o reenviar.
Assim foi.
Respondi ao mail e imediatamente me chegou a contraproposta: mais uma "carta da Nigéria". Mais um grupo de estudantes católicos que vinha para Coimbra mas, coitadinhos, precisavam de um adiantamento em dinheiro para fazer face às primeiras despesas. Tudo em troca de um cheque no valor de vários milhares de dólares que eu simpáticamente iria depositar e esperar sentado que o dinheiro me caisse na conta. Seguidamente retiraria o valor que havia adiantado e uma gorda gorjeta. O remanescente seria entregue ao chefe do grupo que obviamente não existe.
Depois das cartas e dos mails, o contacto pessoal.
Desde a Nigéria.
Ou de outro lado qualquer...

Ginger



Tomou-lhe a mão
E por momentos
Ela achou-se uma rainha.
E a música,
Que antes lhe parecera um eco,
Envolveu-a em paz.
E a luz arrepiou-lhe a alma.
E o toque quente do seu corpo
Suspendeu-lhe o sopro.
E o choro,
E toda a vida se sumiu ali.
E então,
Porque agora é hora,
Voaram pela noite fora como dois amantes...

sábado, 16 de outubro de 2010

da Fome



Assinala-se hoje o Dia Mundial da Alimentação.
Dizer que quase quinze por cento da população mundial passa fome é quase uma coisa banal, embora seja verdade.
Dizer que três por cento dos famintos vagueiam pelas ruas da Europa parece irrisório, embora não dispiciendo.
De facto, existem pouco menos que mil milhões de famintos no mundo. Mil milhões já parece um número grande. Parecem mais assim do que se dissermos quinze por cento.
E os três por cento dos europeus, quantos serão?
Qualquer coisa como a população de três países semelhantes a Portugal.
Famintos.
Aqui, na Europa.
Por enquanto...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Querido Diário



Lentamente volto às rotinas do Outono.
Um regresso sempre saudado.
Mais ainda porque este foi um Verão particularmente atípico no que ao meu quotidiano respeita.
Recomecei as minhas voltinhas de fim de tarde pela Baixa de Coimbra.
Hoje o tempo ainda não se pôs a jeito para um cházinho no Santa Cruz, mas não hão-de faltar oportunidades. Anseio por elas.
Encontrei na Bertrand o que já desesperava por encontrar em locais mais distantes: os dois volumes que me faltavam para completar a colecção de Blake e Mortimer (dos originais de Edgar P. Jacobs). Aproveitei e comprei também um livro, aparentemente fantástico, com a chancela National Geopgraphic, chamado "Food Journeys of a Lifetime".
Reparei com tristeza que a Discoteca Novalmedina encerrou as suas portas (agora me lembro que não reparei se a livraria por lá continua), tendo sido já substituída por uma loja que vende não se percebe bem o quê.
Já me tinham contado, mas só hoje vi, que a Brasileira pretende reabrir como café ou restaurante (não dá para perceber) e que está a contratar pessoal. Uma belíssima notícia.
Por fim uma paragem no Pinto & Filho versão "delicatessen" para uns rebuçadinhos de Portalegre e um frasquinho de amêndoas caramelizadas que irão fazer as delícias da minha última aquisição: diabetes.
Para começo de Outono, não está mal.

domingo, 10 de outubro de 2010

da subida do Solomon



Subiu esta manhã um dos maiores da Soul.
A música em geral e todos nós em particular estamos um nadinha mais pobres.
Só um nadinha porque felizmente a voz não foi com ele.

sábado, 9 de outubro de 2010

da Explicação (assim um bocadito trapalhona)


Vi um extracto de uma entrevista de Tony Blair a Nuno Rogeiro que irá passar na SIC Notícias oportunamente.
No bocadito que vi, Blair justifica a invasão do Iraque enquanto resultado do 11 de Setembro como a coisa mais acertada que se fez.
E explica.
Segundo o seu ponto de vista, o recrudescimento dos ataques terroristas é a melhor prova de que os aliados estavam correctos ao fazerem o que fizeram. Pelos vistos, colocaram o dedo sobre a ferida e os gajos (os terroristas) ficaram chateados e resolveram começar a ameaçar o ocidente. Infelizmente já fizeram mais que ameaçar.
O que eu ainda não consegui perceber é onde se encontra o lado positivo de tudo isto.
E eu até sou dos que acham que a Europa (e o mundo de um modo geral) devia ter uma acção mais assertiva em relação a toda essa malta que acha que a fé (ou seja lá o que for) se espalha à força de bombas.
Provavelmente terei que ver o resto da entrevista.
Mas a cara do Rogeiro perante esta explicação deu para ver que não sou o único a estranhar.

do lado prático da coisa


(Texto enviado pela Marta Marques)

Saiu numa edição do Financial Times.
Uma jovem mulher enviou um e-mail para o jornal a pedir dicas sobre “como arranjar um marido rico”.
Contudo, mais inacreditável que o “pedido” da rapariga, foi a resposta do editor do jornal que, muito inspirado, respondeu à mensagem, de forma muito bem fundamentada.
Sensacional!

E-mail da rapariga:
“Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos.
Sou bem articulada e tenho classe. Quero casar-me com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de
dólares por ano. Há algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas?
Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não me vão permitir morar em Central Park West.
Conheço uma mulher (do meu grupo de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente.
Então, o que é que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correcta? Como chego ao nível dela?”
(Raphaella S.)
____________________

Resposta do editor do jornal:
“Li a sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seucaso e fiz uma análise da situação.
Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou a tomar o seu tempo à toa...
Posto isto, considero os factos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que procura), o que oferece é simplesmente um péssimo negócio.
Eis o porquê: deixando o convencionalismo de lado, o que sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas: Você entra com a beleza física e eu entro com o dinheiro.
Mas há um problema.
Com toda a certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará a aumentar.
Assim, em termos económicos, você é um activo que sofre depreciação e eu sou um activo que rende dividendos. Você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre
a aumentar!
Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelospróximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando se comparar com uma fotografia de hoje, verá que se transformou num caco.
Isto é, hoje você está em ‘alta’, na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada.
Usando a terminologia de Wall Street, quem a tiver hoje deve mantê-la como ‘trading position’ (posição para comercializar) e não como ‘buy and hold’ (comprar e manter), que é para o que você se oferece...
Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um ‘buy and hold’) consigo não é um bom negócio a
médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim!
Assim, em termos sociais, um negócio razoável a ponderar é, namorar.
Sem ponderar... Mas, já a ponderar e, para me certificar do quão ‘articulada, com classe emaravilhosamente linda’ você é, eu, na condição de provável futuro locatário dessa ’máquina’, quero
tão-somente o que é de praxe: fazer um ‘test drive’ antes de fechar o negócio... podemos marcar?”

(Philip Stephens, associate editor of the Financial Times - USA)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ndidi Onukwulu

do desnorte


Começa a ver-se um pouco por toda a Europa o ressurgimento de um certo ambiente nacionalista, em certos meios quase xenófobo.
Era saudável que não perdessemos de vista a ideia de que o mal que levou a esta situação não deriva da democracia em si, mas do uso pouco escorreito que muitos têm feito dela.

do regresso às origens


Passaram cem anos e o círculo colmatou-se.
Antes como agora o país devia a Deus e a todo o mundo.
Antes como agora o povo estava farto da corja.
Antes como agora andavam os de fora a querer mandar em nós.
Antes como agora havia fome.
Antes como agora havia miséria.
Antes como agora havia revolta.
Antes como agora a política era porca (aí há conotações diferentes).
Antes como agora se contavam de um lado os tostões e do outro os milhões.
Diferente mesmo só a esperança: há cem anos havia a perspectiva de uma mudança.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

domingo, 26 de setembro de 2010

Edge of darkness


O tema é polémico e actual.
A situação poderia muito bem acontecer.
A história podia ser fantástica, mas não é.
Infelizmente o argumento é fraco e está muito mal realizado. Tem solavancos na trama que deixam coisas por explicar e eventos metidos à pressão que não têm qualquer explicação.
Não chega a ser mau, é vulgar.

da Portugalia



A primeira vez que fui à Portugalia devia ter uns dez anos. À Portugalia, porque na altura só havia uma: a da Almirante Reis.
Fiquei esmagado com tanta sofisticação: um edifício avassalador (quando se tem dez anos, tudo nos parece enorme), copos com um emblema e com o nome do restaurante (não me lembro, mas tenho quase a certeza que não bebi cerveja), batatinhas fritas servidas à parte e um bife assim imerso num molho espesso - natas, entre outras coisas, disseram-me na altura.
Natas!
Há trinta anos, natas era uma coisa luxuosa. Como o eram champignons, ou o ananás ou o marisco.
Um dia alguém ofereceu uma lagosta ao meu pai e lembro-me que à falta de ideias suficientemente grandiosas para a servir, foi ficando na arca. Dois anos. Quando a tirámos, estava parcialmente seca.
Ainda hoje, e embora já tenha comido muito quilo de bife, ainda hoje considero como definição de bife, o bife da Portugalia. Chamem-me conservador. É justo. Um dia destes ouvi o Miguel Esteves Cardoso no programa do Carlos Vaz Marques na TSF a dizer que um conservador é aquela pessoa que gosta de manter intactas (disse mais ou menos assim) as coisas que funcionam bem. Eu subscrevo.
Hoje almocei numa Portugalia. A de Coimbra, por comodidade. Tinha a familia a fazer turismo de guerra por terras da encosta leste do Bussaco e como tinha que vir trabalhar, aproveitei. Uma das poucas mordomias de ser recepcionista em part-time com ordenado de director.
E porque sou conservador, conservei-me fiel ao "do costume": um creme de camarão, um bife do lombo mal passado com molho Portugalia, batatinhas e uma quantas imperiais (Sagres, não me canso de reclamar).
Irrepreensível.
Confirmo a definição: bife é na Portugalia.
Suculento e tenríssimo.

Nota de rodapé - Sei que o molho não leva natas, mas como sou conservador e durante anos achei que levava, assumo. É engrossado com amido, provavelmente Maizena. Mas leva leite, e mais um ingrediente misterioso que não revelo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Gary Burton

da Coisa...

Cubist Still Life - Roy Lichtenstein


De
Veras loucas manhãs
E noites tristes
Se engalfinha a vida.
E gotas de suor nas caras.
E caras gotas de orvalho
A cheirar a sândalo e jasmim.
E o aroma da paixão
Que bate à porta.
Sopetão de loucura
Ilusionismo e desregrada fé
Na vida.
E um beijo no pescoço
E dor...
Saudade e despedida.
E o aroma da partida é doce.
Cintilando,
O brilho em cada esquina
Do último olhar
Maior que o mundo.
E triste.
É triste a dor de ter
Sem ter,
De olhar sem ver,
Morrer em vida,
Só por ser. 

2010.09.24

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

da Magnum


Uma fatia grande da piada da vida, reside nos excêntricos.
Embora com rigor científico duvidoso, atrevo-me a dizer que a esmagadora maioria das boas ideias que fizeram e fazem rolar o mundo se deveram e (felizmente) devem a excêntricos.
Pela parte que me toca, ficasse eu excessivamente rico (se é que isso é possível) e dedicar-me-ia à solene causa da excentricidade.
Não há nada que impeça os pobres de serem excêntricos (excluída a falta de dinheiro) mas sentir-me-ia mais confortável se o fosse sendo rico do que meramente remediado, posição que provisoriamente ocupo.
O meu subconsciente é, por questões higiénicas, dividido em dois grandes blocos: o bloco activo (que menosprezo), onde se escondem aquelas forças negras que me impelem a trabalhar e a dar de mim um ar compostinho e o bloco prazenteiro que se divide em ineficiência, desperdício, alucinação, hibernação e inutilidade.
Mercê da sua maior organização interna, o bloco activo impõe-se e com ele vou vivendo, mas tenho à espreita todo um manancial de pequenas inutilidades. De pequenos eus, doidos por cabriolar pelas avenidas da vida abaixo.
Esperai que talvez um dia a coisa se dê!
Como me é de todo impossível, momentaneamente, espraiar a disfunção, aprecio e venero os excêntricos com a inveja que me é permitido ter pelos que são realmente grandes.
À cabeça dos meus sonhos vem indubitavelmente Leonardo Da Vinci. Por tudo, e apenas por isto - uma máquina de partir ovos que utilizava a necessária (provavelmente excessiva) força de quatro cavalgaduras para cumprir a sua função. Existe o projecto da coisa, nada prova que tenha sido sequer tentada a construção, com mais que óbvia pena de toda uma humanidade em busca de novas razões para aplaudir.
De forma menos prosaica, admiro (com curvadíssima vénia) o grupo de marinheiros americanos que nos idos de setenta foram suspensos de funções por utilizarem as juntas de um porta-aviões como quebra-nozes. Dependia a produtividade da máquina do estado do mar e penso que será oportuno lembrar que, ancorado, o mastodonte perdia toda a sua utilidade.
Ontem, e ontem será porque a esta hora já é amanhã, regressando a desoras à leitura do meu mais antigo livro de cabeceira, Stirred But Not Shaken (a quase quase póstuma autobiografia de Keith Floyd), capturei mais um antológico momento de excêntrica e salutar alegria de viver.
Estava Floyd a filmar em França para a série da BBC "Floyd in France" no início dos anos oitenta quando o seu produtor, David Pritchard, conheceu numa noite de copos um multimilionário hippie que vivia num palácio nas redondezas do local onde pretendiam  filmar um episódio. Mais ainda, o senhor tinha um artefacto que na altura pareceu apropriado à utilização num programa de culinária: um balão de ar quente.
Dito e feito e lá vão, ar acima, o feliz proprietário, um desconfiado Keith Floyd e um pouco menos que aterrorizado Clive North, o operador de camara.
A ideia era dar uma voltinha, filmar uns "pretties" e fazer uns comentários acerca da vista.
Já a considerável altura, o francês resolve obsequiar os convidados com nada menos que uma taça de Champagne e daí a aparecer dos confins do cesto uma Magnum, foi um instante.
Fleumático, e para mais tarde se arrepender, Floyd terá feito um comentário acerca da temperatura pouco apropriada do vinho.
Conhecedor de física, talvez mais do que de condução de balões, o milionário (hippie) explicou aos dois ingleses boquiabertos como se gela uma garrafa de Champagne instantaneamente - expondo-a à evaporação do gás butano das garrafas do balão.
O princípio era correcto, embora o local não fosse adequado.
Privada de gás (que entretanto se consumiu a arrefecer um litro e meio de néctar), a chama que aquecia o ar do balão extinguiu-se e a descida abrupta terminou numa auto-estrada onde felizmente algúem se apercebeu da chegada do balão, parando a tempo de evitar um choque que poderia ter um desfecho funesto para estas três personagens de opereta.
O francês, que reconhecia ao seu balão vontade própria e dotes de geografia, não fazia a mais pequena ideia do sítio onde tinham aterrado, o que dificultou um pouco a confecção do prato correspondente a esse episódio, cujos ingredientes viajavam num carro juntamente com o resto da equipa.

sábado, 18 de setembro de 2010

Welcome


Existirá uma razão que consiga fazer um homem percorrer a pé quatro mil quilómetros?
Existirá uma força que o impeça de desistir?
Mesmo que pela frente tenha o Mar do Norte e mais de trinta e cinco quilómetros de água gelada, correntes e enormes petroleiros, tudo a convencê-lo por uma vez a encarar a hipótese de capitular?
Existirá?
Claro que existe. E está explicadinha neste filme de 2009, que ganhou um carradão de prémios em toda a Europa.
Realizado por Phillipe Lioret, Welcome é a história de Bilal, um miúdo Iraquiano do Curdistão que percorre a pé quatro mil quilómetros para encontrar a namorada que vive em Londres com os pais. Nada o consegue parar, incluindo o exército turco, até chegar a Pas de Calais e ao tenebroso Canal da Mancha que finalmente lhe barra o caminho.
E porque uma força imensa o impele, Bilal arrisca atravessar o Canal a nado. No Inverno, quando nunca ninguém tinha sequer tentado.
Um belíssimo filme.
Um hino à força do amor. E à estupidez de certas mentalidades.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

d'A Caruma



Leiria de regresso à grande música.
A minha última paixoneta musical.
O album chama-se A Caruma e custa onze euros e uns trocados.
Bora lá ajudar os músicos portugueses.
Que para mais nem são de Lisboa nem do Porto.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Wim Mertens


Cinco de Novembro, no CAE.

dos postos de trabalho


O número de funcionários municipais aumentou no nosso país.
Aparentemente porque houve mais serviços descentralizados, nomeadamente escolas.
Mas então o objectivo não era precisamente o contrário?
Porque será que em Portugal resulta tudo ao contrário do planeado?
Mau planeamento ou má execução?

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

do Balcão


O balcão é íntimo.
É aconchegado.
Não existe melhor companhia para um repasto ligeiro que a madeira bem tratada de um balcão.
Por vezes, faz jeito ter do outro lado um empregado que nos ouça só por ouvir, mas na maioria dos casos, basta o balcão.
Uma cadeira cómoda, sem ser perigosa, e espaço para acomodar as pernas também é fundamental.
Imprescindível, uma boa barra para descansar os pés e ajudar à subida e descida.
Se não for pedir muito, uma luz baixa. Só para nós.
O Gambrinus é o melhor balcão do mundo (ponto final).
Passemos à frente.
De miúdo, e porque o balcão nos faz sentir homens (ali estamos por nossa conta), de miúdo lembro-me do balcão da Centenário, em Aveiro, memorável na sopa do mar e numa sobremesa do mais comum que há (flan com merengue por cima) mas que me parecia, ao tempo, divina.
Lembro-me de mais dois ou três balcões onde comi pregos com o meu pai em várias cidades de norte a sul e especialmente do Snack Bar Sotavento, em Albufeira, nos finais de setenta. Era Albufeira ainda uma vilória de pescadores com cães vadios e potes de barro da pesca do polvo espalhados pela praia. E o Sotavento era uma casa moderna, com um balcão em inox e hordas de ingleses que bebiam sangria. Era fantástico deixar as coisas na praia, abancar no balcão com os pés pendurados, comer frango de churrasco com batatas e salada e um sumol.
Um sumol por dia.
No Porto, lembro-me do balcão da Gambamar, a perder de vista, das mesas de marisco no Capa Negra (tenho um episódio negro da minha vida que envolve uma dessas mesas e alguns litros de cerveja, mas agora não é relevante) quando me sentava ao balcão a comer os maiores rissois do mundo e do balcão da Galiza onde comi algumas das francesinhas mais memoráveis.
Um parentesis para o John Bull em Cascais onde nunca comi, mas ao qual encostei muitas vezes a barriga para beber uma Guinness enquanto o Sr Joaquim Couto, proprietário do bar (à época) e mealhadense de gema, se aquecia junto à lareira naqueles fins de tarde de Inverno em que a marginal parecia mágica e o oceano parecia louco.
Em Coimbra há um balcão: o da Munich.
Hoje visitei-o. Desta vez numa quase visita de médico.
Foram camarões da costa que brilhavam de frescura, ostras que só pecaram por não terem pimenta em grão para moer (isto para não falar das torradinhas de pão escuro com manteiga que só o Gambrinus tem), percebes irrepreensíveis e um prego no pão que acabou por não aparecer porque o cozinheiro só entrava às seis e antes disso recebi um telefonema a requisitar os meus serviços com certa urgência.
Menos bom só a cerveja que, desgraçadamente, continua a ser Sagres.
Adoro balcões.
Penso que dá para perceber.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

das aberrações


A Makro de Coimbra vai mudar de lugar na próxima semana.
Fui lá ontem para me despedir - sou assim, nada a fazer.
Comprei uma garrafa de Bols Mango para os xiripitis da Elsa e uma coisa que já andava há imenso tempo para experimentar: Croft Pink.
Supostamente será um vinho do Porto ligeiro, rosado, para senhoras, segundo a marca.
Natural é imbebível, frio é muito mau, misturado com água tónica é intragável.
Vai direitinho para o lugar especial onde guardo guardo as aderrações, fazer companhia a uma garrafa de vodka baunilha.
Tenho dito.

PS.Para a Elsa fiz uma coisa docinha: Bols Mango, Compal de coco e ananás, sumo de limão e gelo. Não a avisei que tinha alcool... Quinou!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

da qualidade do Ar


O senhores do Turismo Centro de Portugal, postaram há momentos no facebook um conjunto de fotografias a que chamaram pomposamente "The magic of breathing fresh air", de onde retirei a foto que ilustra este texto.
Temo pela resposta, mas chamarem "fresh air" a um produto que contem "pollutive agents" é levar a um patamar completamente novo a máxima "no marketing deve utilizar-se uma política de verdade".
Pensei que se trataria apenas do ar do Luso que tivesse sido recolhido num dia de laboração da Alcides Branco mas, após consulta, constatei que afinal a moléstia se estende a toda a Região Centro.
Preocupante.