terça-feira, 9 de setembro de 2008

O ençino


Aprender dá trabalho. Evoluir dá trabalho. Crescer dá trabalho. Estudar dá trabalho. Quem pensa o contrário está obviamente errado, como errado está, colocar pessoas que assim pensam em lugares onde podem condicionar terceiros às suas ideias alucinadas.
Todos sabemos que há quem tenha chegado longe sem trabalho e quem se farte de trabalhar sem nunca chegar a lado nenhum. São tropeções da vida que, na sua maioria, nem os próprios conseguem controlar. Mas são acasos: nunca serão caminhos!
O esforço deve ser compensado, mesmo que não exista castigo para os relapsos. A busca do saber deve ser um objectivo próprio, íntimo, umas vezes posto ao serviço do próprio individuo, outras ao serviço da comunidade. Todos devemos ter prazer em aprender, também porque com isso poderemos ir mais longe, mas acima de tudo porque nos enriquecemos, porque nos tornamos melhores pessoas, porque conseguiremos assim interagir mais com o mundo que nos rodeia.
Se à família compete educar (e nisso muitas falham muito), à escola compete formar.
É na escola que se constrói muito do nosso carácter. A escola permite um conjunto de experiências que a família não consegue proporcionar: o contacto com o outro que tem uma experiência de vida diferente, a interacção com o formador que a ambos enriquece, a interiorização de uma certa dose de disciplina e vida em comunidade que só mais tarde revelará a sua importância na vida das pessoas.
Mas a escola está moribunda.
Renderam-na à estatística do abandono escolar, à crueza dos números da taxa de analfabetismo (que desceu, dizem, enquanto sobe a da iliteracia) e ao ilusionismo dos iluminados que julgam que a tecnologia substitui o cérebro humano. Os alunos levam injecções de formol no cérebro desde que entram no “sistema”.
Com o intuito de combater o abandono escolar e de introduzir à força competências nos curricula insípidos dos meninos, tudo se faz para que não se melindrem. Não chumbam por faltas, quase não chumbam por terem más notas (reter um aluno dá muito mais trabalho e chatices que deixá-lo seguir a sua vidinha descansado), não são penalizados pelos continuados desrespeitos e ocasionais açoites que diligentemente distribuem por colegas, professores e funcionários (são até defendidos pelos paizinhos que habitualmente são mais mal educados que os próprios meninos), em suma, são levados ao colo para não se sabe bem onde!
Olha aqui um gajo de extrema-direita, dirá o leitor mais atento.
Mentira!
Reporto-me apenas a conversas com alunos que efectivamente estudam, que efectivamente trabalham e que não se conformam por saber que há colegas provenientes dessas tais injecções de competências (novas oportunidades e similares) que os ultrapassam pela direita e em manobras de chico-espertice chegam às faculdades sem nunca terem feito “a sério” mais que o nono ano. Alguns entrando em cursos de média elevada pela porta ambígua de certos contingentes especiais.
E o maior problema é que o próprio ensino superior público, baluarte do saber e travão da incompetência, também já está bichado: a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra tem Mestrados para pessoas sem qualificação académica. A quinhentos contos cada um.
Toma e embrulha e actualiza-te, Pedro Costa, porque o mundo, como tu às vezes dizes, anda para a frente e não para trás.

11 comentários:

  1. Concordo a 100%!

    É uma infelicidade - para os que o percebem - ter um "governo estatistico" (seja ele de que partido for!) interessado na implementação de medidas que nos façam "parecer bem lá fora" e não na verdadeira educação e futuro do país.

    Porque é do futuro que se trata... E se o nosso presente já não é "famoso" onde nos conduzirão estas politicas do facilitismo estatistico?
    Haverá a via novas oportunidades para países que poderiam ter feito mais e melhor mas desistiram da educação?

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  2. Nada a acrescentar meu caro... Infelizmente!

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  3. Este goberno só serve para encher chouriços.

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  4. No Jornal das 9, do Mário Crespo, Joaquim de Aguiar (JA) fez ontem um brilhante comentário:
    Este governo do PS está condenado ao fracasso por uma razão muito simples e linear: é que teve de governar contra a sua natureza. A natureza de um governo socialista é distribuir, gastar, agradar a todos. Face á crise, este teve que aplicar uma política contra os seus cânones habituais. Deu no que está a dar - o descrédito e descalabro total. JA vaticinou mesmo que este governo não chegará ao fim. Claro que o tenebroso panorama que o Pedro traçou para a educação não é só responsabilidade deste governo. Mas, ao querer, teimosa e desastradamente, "obrigar os professores a trabalhar", uma coisa que os socialistas pura e simplesmente desconhecem o que é (trabalhar), só poderia conduzir a isto, semeando insanidades mentais e multiplicando mistificações estatísticas pseudamente favoráveis ao governo.

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  5. Caro Pedro, o seu post levanta tantas questões que não saberia por onde começar: carreira docente; ensino básico e secundário; mérito; estatísticas;sindicatos; pais; avaliação; ensino superior; etc.. Contudo, antes de comentar em mais pormenor alguns dos seus tópicos, gostava que clarificasse essa questão de a FLUC estar a aceitar estudantes em mestrado sem qualificação académica.

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  6. Dois esclarecimentos:
    1.Sou militante e autarca do PSD mas este post não é uma declaração política. A versão inicial do post era precedida de uma declaração de intenções que apaguei (afinal fiz mal), que dizia precisamente que o problema remonta aos primórdios da governação cavaquista, aos primeiros governos em democracia estável em Portugal.
    2.Dei o exemplo da FLUC porque o conheço (Mestrado em Alimentação, 2 anos, aberto a licenciados ou não licenciados com experiência profissional na área), mas o que não falta por aí são casos semelhantes. Basta procurar na net.

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  7. Claro.
    Concordo que o problema vem muito de trás. Mas não há dúvida que os socialistas são os principais culpados pelo facilitismo.
    Quem se pode gabar de nunca ter condescendido em matérias de rigor? É que o risco de ser logo apelidado de fascista tem estado sempre presente...

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  8. Infelizmente temos assistido a uma política de "deformação" onde as belas estatísticas escondem uma insana realidade.
    Para a aplicação do îdealizado "modelo finlandês" não bastam os "Magalhães" que mascaram uma triste e dura realidade no ensino. Somos um país de ignorantes alunos e governantes a quem só o resultado interessa, mesmo que para que se chegue a ele tenhamos que fechar os olhos à gritante falta de conhecimento dos nossos alunos. Desde que se instituiram as passagens administrativas no PREC nunca mais este Ensino se endireitou.

    Ave Caesar

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